
Janara Sousa — chefe da Assessoria Especial de Comunicação do Ministério das Mulheres, professora e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB)
Você já deve ter visto vídeos e postagens em que homens afirmam, com toda naturalidade, coisas como: "mulher não foi feita para liderança", "homem é racional, mulher é emocional", "o feminismo destruiu a família". Essas frases costumam ser apresentadas como simples opinião ou, pior, como "verdade científica" ou "vontade de Deus". Nada disso é novo. O que é novo é a velocidade e a escala com que esse tipo de conteúdo circula, se organiza e se monetiza na internet.
Quando pensamos em desinformação, geralmente lembramos de notícias falsas sobre política, saúde ou fraude financeira. Mas a desinformação também é combustível de uma máquina muito mais insidiosa: a máquina do ódio contra as mulheres. Não se trata apenas de metáfora. Estamos diante de um sistema de produção, circulação e monetização de discursos que ameaçam diretamente a cidadania das mulheres e a própria democracia.
Os dados ajudam a entender a dimensão do problema. Pesquisa do DataSenado, realizada entre 5 e 28 de junho de 2024, mostra que 72% dos usuários de redes sociais, o equivalente a 67% da população brasileira com 16 anos ou mais, viram notícias que desconfiavam serem falsas nos seis meses anteriores ao levantamento. Mas reconhecer o perigo não significa conseguir se proteger: metade dos entrevistados declarou considerar difícil identificar se uma notícia é falsa ou não.
É nesse ambiente que prospera a chamada machosfera: um ecossistema digital de canais, fóruns e influenciadores que vendem a narrativa da superioridade masculina e da vitimização dos homens diante do feminismo. A estratégia central desse ecossistema é usar a desinformação para justificar a misoginia. Dados biológicos são distorcidos, a história é manipulada e textos religiosos são mobilizados de forma seletiva. Não se trata apenas de mentir. Trata-se de criar um verniz de legitimidade para a violência.
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A pesquisa do NetLab/UFRJ, realizada em parceria com o Ministério das Mulheres no âmbito do programa Brasil sem Misoginia, tornou esse modelo visível. O estudo analisou 137 canais no YouTube Brasil com conteúdos de ódio, desprezo, aversão ou controle sobre as mulheres. Foram examinados milhares de vídeos, com bilhões de visualizações, milhões de comentários e diferentes formas de monetização, como anúncios, doações, cursos, mentorias e comunidades pagas. É um modelo de negócios construído sobre o ódio às mulheres. E as plataformas seguem respondendo de forma insuficiente à engrenagem que ajudam a monetizar.
Essa violência não fica confinada às telas. Ela transborda e afeta a cidadania concreta das mulheres. No Brasil, 8,8 milhões de brasileiras, o equivalente a 10% da população feminina com 16 anos ou mais, sofreram algum tipo de violência digital nos últimos 12 meses, segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado e pela Nexus em 2025. Quando uma mulher é alvo constante de difamação, exposição íntima, ameaças ou campanhas coordenadas de ódio, o primeiro efeito costuma ser o silenciamento. Ela muda o que posta, evita determinados temas, recua de candidaturas, perde oportunidades. O espaço público, não apenas o digital, mas também o da rua, do trabalho, da política e das instituições, torna-se hostil.
Mulheres que ousam ocupar espaços de poder são as mais visadas. Políticas, jornalistas, pesquisadoras, ativistas e lideranças públicas relatam campanhas de difamação e ataques coordenados que se traduzem em hostilidade dentro e fora das instituições. A mensagem implícita nessas campanhas é sempre a mesma: "a política, o jornalismo, a liderança não são o seu lugar".
Toda vez que se tenta enfrentar esse cenário, aparece o argumento da "liberdade de expressão". Mas é preciso ser muito clara: liberdade de expressão é um pilar da democracia, mas não pode ser usada como escudo para difamar, expor intimidade, ameaçar ou convocar ataques contra mulheres. A dignidade das mulheres não é negociável. Misoginia não é opinião. É violência.
Quando aceitamos que a desinformação seja usada sistematicamente como arma contra metade da população, aceitamos uma cidadania pela metade. E cidadania pela metade produz, inevitavelmente, uma democracia pela metade. Enfrentar esse problema exige responsabilizar as plataformas que lucram com o ódio, reconhecer a desinformação de gênero como forma de violência política e recusar coletivamente a ideia de que normalizar a misoginia é aceitável. Enquanto o espaço público, nas ruas, nas instituições e na internet for inseguro para as mulheres, nossa democracia continuará sob ameaça.
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