
Sabe aquela canção Samba de uma nota só do Tom Jobim? É uma lindíssima bossa, mas não pode servir de trilha sonora para a Seleção. A Copa costuma punir o apego a uma fórmula. Por mais que Carlo Ancelotti esteja convicto do sistema tático com quatro atacantes, o campo pede alternativas a uma semana da estreia contra Marrocos, no próximo dia 13, às 19h, no MetLife Stadium, e elas começarão a ser dadas hoje no duelo com o Egito.
O sistema predileto do Ancelotti exige recomposição do ponta Luiz Henrique e do falso 10 Matheus Cunha. Vinicius Junior e Raphinha não entregam 100% de transpiração e dão brecha às mudanças. Sobrou para Luiz Henrique.
Ancelotti experimentará um sistema com três homens no meio de campo: Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá. Poderia ser Danilo do Botafogo. Está jogando muito no clube e na Seleção!
A minha impressão na primeira semana de treinos aqui em Nova ersey, nos Estados Unidos, é de que o vestiário dialoga com Ancelotti. Jogadores marcados por eliminações, como Alisson, Marquinhos, Danilo, Alex Sandro e Casemiro, trocam ideias com ele entre a esbaforação de um charuto e outro. A falta de variação, o samba de uma nota só, tem sido vilão nas eliminações em série nas quartas de final.
Em 2006, Parreira era refém do quadrado mágico. Não desapegava de Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo. Havia clamor pela entrada de Juninho Pernambucano no meio de campo em troca de estabilidade tática. Parreira sacou o Imperador nas quartas de final, mas aquela formação não tinha entrosamento suficiente para enfrentar a França.
Quatro anos depois, Dunga pagou caro pela avareza. Não renunciava a Elano, Kaká, Luis Fabiano e Robinho. Pior: convocou um banco de reservas frágil. Bastou Elano sofrer lesão e Ramires cumprir suspensão nas quartas de final para o capitão do tetra se embaralhar contra a Holanda. Daniel Alves entrou improvisado no meio de campo na queda diante da Holanda.
Tite achou o time cedo em meio ao ciclo para a Copa de 2018. Ostentava um time que deu certo desde o primeiro dia de trabalho e o repetiu a exaustão. Quando a Copa chegou, Daniel Alves se machucou e ficou fora da convocação. Renato Augusto desembarcou na Rússia lesionado e mexeu no tabuleiro tático. Quem entrou não correspondeu e Tite viu a dependência de Daniel Alves e Renato Augusto exposta.
Quatro anos mais tarde, havia um apego pelo quarteto formado por Raphinha, Neymar, Vinicius Junior e Richarlison. Em vez de fortalecer o meio de campo contra uma Croácia liderada por Modric, manteve a postura ofensiva até quando vencia por 1 x 0 e sofreu gol de contra-ataque.
A necessidade ensina a mudar. Romário e Bebeto levaram o Brasil ao título da Copa América em 1989. Um ano depois, o ataque na Copa era Müller e Careca. Parreira tinha Raí como camisa 10 intocável. O meia perdeu a posição para Mazinho em 1994. Juninho Paulista iniciou o Mundial de 2002 titular e Kleberson ganhou a posição. O convicto Ancelotti ao menos está ouvindo...
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