ARTIGO

O futuro não está na polarização

O futuro não está na polarização. Está na capacidade de formar uma sociedade intelectualmente livre, capaz de debater sem cancelar, discordar sem destruir e competir sem transformar adversários em inimigos

. -  (crédito: Caio Gomez)
. - (crédito: Caio Gomez)

Eduardo PedrosaDeputado distrital (União Brasil)

Existe um erro histórico que a centro-direita brasileira precisa ter a coragem de reconhecer. Durante décadas, enquanto a esquerda disputava universidades, movimentos estudantis, sindicatos, produção cultural, editoras e espaços de formação intelectual, a direita concentrou seus esforços nas eleições, na economia e na gestão pública. A esquerda pensava em décadas. A direita pensava em governos. E, talvez, seja impossível compreender o Brasil de hoje sem entender essa diferença.

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A política não começa na urna. Ela começa muito antes, nos lugares onde uma geração aprende a interpretar o mundo. Foi isso que Antonio Gramsci percebeu ao desenvolver o conceito de hegemonia cultural. Quem influencia a educação, a cultura e os formadores de opinião influencia a forma como a sociedade pensa. E quem influencia a forma como a sociedade pensa acaba, inevitavelmente, influenciando a política.

Essa percepção não foi exclusiva de Gramsci. Ao longo do século 20, diferentes correntes políticas compreenderam a importância estratégica da disputa de narrativas, da formação de lideranças e do controle sobre os espaços de produção intelectual. Durante a Guerra Fria, a própria KGB investiu em operações de influência e disputa de narrativas no exterior. O que aconteceu no Brasil, porém, não foi fruto de nenhuma conspiração. Foi algo mais simples e mais poderoso: ideias viajaram. Intelectuais brasileiros estudaram na Europa, entraram em contato com Gramsci, Foucault e diversas correntes críticas do pensamento ocidental, e trouxeram essas referências para as universidades, os sindicatos, os movimentos sociais e a burocracia estatal.

Parte da esquerda compreendeu a importância estratégica desses espaços e investiu na formação de professores, pesquisadores, lideranças estudantis e intelectuais. A direita acreditou que crescimento econômico e bons governos seriam suficientes para sustentar suas ideias. Não foram.

O resultado mais visível dessa assimetria talvez seja a própria polarização que paralisa o país. Deixamos de discutir produtividade, inovação, educação, competitividade, ciência e desenvolvimento para nos consumir em guerras culturais intermináveis. A esquerda vê fascistas em todo lugar. A direita vê comunistas em todo lugar. E o Brasil fica parado no meio.

As redes sociais ampliaram o acesso a ideias e criaram espaços de debate. Mas vídeos curtos e conteúdos virais não constroem transformações duradouras. As grandes mudanças culturais da história foram forjadas em livros, universidades, centros de pesquisa e ambientes permanentes de produção de conhecimento.

Se a centro-direita quiser construir algo que sobreviva ao próximo ciclo eleitoral, precisará voltar a disputar esse terreno. Não para substituir uma hegemonia de esquerda por uma hegemonia de direita, mas para reconstruir o pluralismo que deveria ser a essência da universidade. Uma universidade saudável é aquela onde Gramsci e Thomas Sowell possam ser estudados, debatidos e criticados lado a lado. Onde diferentes visões de mundo coexistam sem que nenhuma delas seja tratada como moralmente superior às demais. O objetivo da educação não é produzir militantes. É produzir cidadãos capazes de pensar.

Essa questão tem consequências que vão muito além da política. Enquanto o Brasil exporta madeira, minério e soja, os países mais desenvolvidos nos vendem tecnologia, patentes, software e máquinas. Exportamos matéria-prima; eles capturam o valor. Mudar essa equação exige uma sociedade capaz de gerar conhecimento, e isso começa pela qualidade e pelo pluralismo da nossa formação intelectual.

O futuro não está na polarização. Está na capacidade de formar uma sociedade intelectualmente livre, capaz de debater sem cancelar, discordar sem destruir e competir sem transformar adversários em inimigos. A grande disputa do século 21 não será vencida por partidos. Será vencida pelas sociedades que conseguirem formar melhor suas próximas gerações. Essa é uma tarefa que não pertence à esquerda nem à direita. Pertence ao Brasil.

 

 

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Por Opinião
postado em 09/06/2026 06:00
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