ARTIGO

Passagem de bastão civilizatório

Trata-se do início da passagem do protagonismo dos governantes políticos, que representam seus respectivos países, para empresários "donos do planeta" que dominam tecnologias e representam interesses acima das fronteiras nacionais

. -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
. - (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

Cristovam Buarque professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

O mundo assistiu à passagem do bastão de superpotência mundial das mãos do líder americano para o líder chinês. Isso era previsível desde que a República Popular da China começou a mostrar os resultados das reformas iniciadas há 50 anos por Deng Xiaoping: a adoção da eficiência produtiva e do empreendedorismo capitalista, sem perder a perspectiva do interesse nacional, com uma estratégia social de longo prazo, sem instabilidade política nem descontinuidade a cada eleição. Outras transições semelhantes já ocorreram: da Grécia para Roma; da Espanha e de Portugal para a Inglaterra; e desta para os Estados Unidos, compartida com a URSS devido ao poder nuclear. Diferentemente, a mudança atual não ocorre apenas de uma nação para outra, mas de um tipo de poder para outro: além da China, a primazia mundial será exercida por outros países e por empresas internacionais.

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Em Pequim, maio de 2026, houve mais do que uma "armadilha de Tucídides" entre uma potência ascendente e outra decadente; houve o início da passagem do protagonismo dos governantes políticos, que representam seus respectivos países, para empresários "donos do planeta" que dominam tecnologias e representam interesses acima das fronteiras nacionais. Não por acaso, ao lado de Trump estavam CEOs de empresas de alta tecnologia.

O bastão ainda passou de um país a outro, mas começou também a passar de uma era civilizatória para outra: Xi e Trump representam um tempo em que o mapa-múndi era composto por países, cada um com sua cor; mas hoje cada país é um pedaço do mundo cujos donos já não são os políticos, embora estes ainda mantenham poder para iniciar guerras, sem, contudo, desenvolvê-las ou sustentá-las sem o apoio dos novos "donos do planeta".

A China pode ser o país cujo estilo político parece melhor preparado para combinar presidentes e CEOs, porque sua cultura política, moldada há mais de 2.000 anos, inclusive por um educador chamado Confúcio, permite a combinação da eficiência e ambição privadas, com os propósitos da ambição coletiva nacional. Um pequeno livro, A cortina de ouro, publicado em 1995 pela antiga Paz e Terra, levantava essa hipótese ao afirmar que o mundo começava a ter "donos da Terra": não mais banqueiros, industriais, proprietários de minas ou comerciantes de commodities, mas criadores de patentes e investidores em alta tecnologia digital, informática, medicinal, espacial, logística.

Nesses 30 anos, o mundo testemunhou a confirmação dessa previsão: a Nasa passou a concorrer com empresas privadas, e é possível que a primeira viagem tripulada a Marte não seja realizada por países, mas por empresas. A rede de satélites que controla o fluxo de informações é privada; a epidemia da covid foi enfrentada graças a vacinas produzidas por empresas privadas que dominam a produção de fármacos e equipamentos médicos; a produção e a distribuição de alimentos estão sob controle de grandes conglomerados, assim como as operações de logística que movem o mundo. A grande revolução da inteligência artificial (IA) será conduzida por empresas, utilizando governos e países, mas com o controle fora das mãos daqueles que ocupam o poder político. O presidente da Fifa conseguiu impor a Trump a recepção dos jogadores do Irã para a Copa do Mundo, e a marca Nike aparece com tanta visibilidade na camisa do Brasil quanto o próprio nome do país.

Tudo indica que o mundo atravessa a passagem do bastão não apenas de uma nação para outra, mas também a consolidação de um novo tipo de poder: o das empresas detentoras de capital, especialmente do capital do conhecimento, em um mundo no qual cada país deixou de ser uma unidade isolada e passou a integrar o conjunto global. Nesse contexto, o poder deixa de ser exercido exclusivamente por políticos em nome de governos nacionais e passa a ser controlado por grupos organizados em empresas, com vantagem para a China, que encontrou o caminho para equilibrar a eficiência de curto prazo do mercado com os interesses de longo prazo da nação.

A passagem do bastão ocorreu entre Trump e Xi, dos Estados Unidos para a China, mas também de um modelo civilizatório para outro. A armadilha contemporânea vai além daquela formulada por Tucídides, citada por Xi durante a reunião: transfere também o bastão dos presidentes nacionais para os "donos da Terra". A "geopolítica" passa o bastão para um tempo de "ecotecnogeopolítica", da era da abundância para uma era de escassez devido aos limites ecológicos e fiscais.

 

 

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Por Opinião
postado em 27/05/2026 06:00
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