
Três incidentes envolvendo os Estados Unidos e nações africanas chamaram a atenção. Mais do que isso: causaram repulsa, indignação, ojeriza. Para não ter que receber um cidadão americano infectado com o vírus ebola, os EUA planejam criar instalações de quarentena no Quênia. Detalhe 1: os centros de isolamento contemplarão tão somente aquelas pessoas nascidas nos Estados Unidos que apresentem sintomas da doença. Detalhe 2: com 58 milhões de habitantes, o Quênia não tem um caso sequer de infecção pelo ebola.
O segundo incidente ocorreu durante o desembarque da seleção senegalesa de futebol em solo norte-americano. Funcionários da Imigração inspecionavam os atletas como se fossem criminosos. Craques como Sadio Mane e Kalidou Koulibaly foram forçados a abrir os braços, tirar os tênis e passar por uma revista com detector de metal ainda na pista do aeroporto. Um tratamento degradante, humilhante e vexatório. O terceiro caso foi o veto à entrada em território norte-americano de um árbitro de futebol da Somália. Outro episódio, que não envolveu um africano, foi não menos vergonhoso: a proibição de venda de ingressos a cidadãos iranianos.
Mais: os casos denotam a pretensa superioridade dos Estados Unidos e a discriminação racial e étnica absurda, típica do imperialismo colonialista que subjuga, oprime e explora. A ideia de enviar americanos infectados com o ebola para um país da África livre do surto, e não tratá-los em hospitais dentro dos Estados Unidos, é deprimente, ainda que nada surpreendente, ante a política de xenofobia do presidente Donald Trump.
A recepção vergonhosa aos jogadores do Senegal para a Copa do Mundo, um evento que prega a união entre os povos e a harmonia entre as torcidas, deveria merecer a máxima condenação da comunidade internacional e da Fifa, organizadora do principal torneio de futebol do planeta. O mínimo que se deveria esperar era um pedido de desculpas contundente da Casa Branca para o Senegal, a União Africana e a Fifa. Fosse no Brasil, vexames assim não aconteceriam jamais. Somos uma nação que acolhe e abre os braços para visitantes de todo o mundo. Sem preconceito.
Os incidentes citados acima apenas reforçam o antiamericanismo mundo afora e expõem a arrogância de um governo que perdeu a mínima noção do que é régua moral e conduta ética. Em Nayuki, a 180km da capital queniana, Nairóbi, e local onde os Estados Unidos construirão a famigerada instalação de quarentena, centenas de pessoas saíram às ruas para protestar. Foram recebidas à bala, a golpes de cassetete e a gás lacrimogêneo. Um civil foi morto durante o confronto com a polícia.
Proponho um exercício mental: imagine que, de repente, os Estados Unidos queiram improvisar um centro de infectados por ebola em uma região administrativa do DF para enviar cidadãos contaminado. Ainda que houvesse um acordo entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca, seria algo no mínimo questionável do ponto de vista ético e moral, não é?
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