ARTIGO

A Bolsa e a vida

Acho que não estou exagerando ao dizer que a saída do Brasil do Mapa da Fome e o nosso IDH "muito alto" começaram lá atrás com o Bolsa Escola

pri-0601-opiniao Opinião Escola Estudantes -  (crédito: Caio Gomez)
pri-0601-opiniao Opinião Escola Estudantes - (crédito: Caio Gomez)

Meados de 1996, há exatos 30 anos. O programa Bolsa Escola, do Governo do Distrito Federal, completara um ano. Na condição de assessor de imprensa da Secretaria de Educação, recebi a tarefa de ir a campo com nossa equipe de comunicação para averiguar os resultados do benefício na vida das famílias da cidade satélite do Paranoá, que serviu de experiência-piloto para o programa.

Os números já tínhamos, colhidos pela própria Secretaria ou pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), mas o que queríamos era recolher histórias de vida. Contar como aquela bolsa estava mudando a vida das famílias, em especial das crianças e mulheres de uma das cidades mais pobres do rico DF.

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As primeiras conversas foram desanimadoras. Professores que lutavam por um justo aumento salarial criticavam o "desvio de recursos para fazer caridade". Diretores de escolas também reclamavam que "o trabalho havia aumentado, pois havia mais crianças nas escolas e eles ainda precisavam fazer um controle mais rigoroso da frequência". 

Nossa equipe voltou desanimada para a redação da assessoria de imprensa. Até que decidimos conversar com nossas colegas que cuidavam da implantação do Bolsa Escola. Ali a percepção começou a mudar. Fomos orientados a ir direto às casas das famílias, ou então a buscar diretores de escolas que estivessem de fato convencidos sobre a importância do programa para a vida daquelas famílias pobres, muitas miseráveis mesmo.

Nossa pequena equipe saiu a campo e foi conhecer como a Bolsa Escola havia mudado a vida da dona Maria. Descobrimos, por exemplo, que algumas mulheres não possuíam renda alguma e que dependiam dos maridos para tudo, até para comprar artigos de primeira necessidade para a higiene pessoal. Aquele dinheiro que recebiam para manter os filhos na escola era para elas a salvação.   

Vimos também crianças sorridentes, pois agora elas eram o centro dos cuidados familiares, pois eram tratadas como verdadeiras bolsistas de estudo. Vimos também homens dizendo que a Bolsa Escola havia permitido que a família comesse mais e melhor, pois o salário que ganhavam acabava antes que o mês. 

Mas o mais importante era ver as escolas cheias. Em apenas um ano de programa, a evasão escolar despencou no Paranoá para quase zero. Mais alunos na escola, menos crianças nas ruas. A repetência também caiu, reduzindo a defasagem idade-série entre os alunos. E como a Bolsa era paga às mulheres, o programa provocou uma pequena revolução nos costumes, dando mais autonomia para que elas planejassem os gastos da família.

Lembro-me de outro efeito que não estava previsto no início do programa, pelo menos para nós que trabalhávamos na Secretaria de Educação. As mais de 14 mil famílias do Paranoá que recebiam a bolsa  viraram consumidoras da noite para o dia. E o resultado disso foi que o comércio local passou a vender mais, a economia da cidade melhorou e o desemprego caiu.  Até os números sobre violência urbana, pelo menos naquele período, melhoraram. Tudo isso gastando cerca de 0,5% do orçamento do GDF.  

Após o programa ser estendido a todo o DF e virar política pública nacional, a partir de 2003, rebatizado de Bolsa Família, dezenas de milhões de famílias brasileiras seguiram o mesmo caminho daquelas pioneiras do Paranoá.

Como me lembrou Marisa Pacheco, que, em 1996, estava na coordenação do programa Bolsa Escola, o sucesso da experiência no DF levou o governo federal a universalizar a experiência para todo o Brasil. Além disso, a repercussão levou a adoção do programa em outros países, o que teve reflexos na economia, na ascensão social e na saúde das pessoas, como nenhum outro projeto de complementação de renda.

Acho que não estou exagerando ao dizer que a saída do Brasil do Mapa da Fome e o nosso Índice de Desenvolvimento Humano "muito alto", anunciado recentemente pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, começaram lá atrás com aquele trabalho de formiguinha feito pelos servidores técnicos e professores da Secretaria de Educação do GDF.

 

 

 

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Por Opinião
postado em 20/06/2026 06:00
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