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Esporte não é só futebol

O futebol tem uma particularidade constrangedora: movimenta somas astronômicas e levanta torcidas e esperanças nos rincões mais miseráveis do mundo

O futebol tem uma particularidade constrangedora: movimenta somas astronômicas e levanta torcidas e esperanças nos rincões mais miseráveis do mundo -  (crédito: Divulgação/Adidas)
O futebol tem uma particularidade constrangedora: movimenta somas astronômicas e levanta torcidas e esperanças nos rincões mais miseráveis do mundo - (crédito: Divulgação/Adidas)

Acompanhando todo o frenesi da Copa do Mundo 2026, não posso deixar de observar o que escapa ao campo. Basta olhar nosso feed no Instagram e demais canais para ver uma cobertura que envolve memória, história, curiosidades, entretenimento, personagens, bastidores de uma redação que sustenta paixão e alegria, Brasília de verde e amarelo, além de informação direto da Copa, com os jornalistas Marcos Paulo e Victor Parrini. Tá bonito de ver, e estou orgulhosa da nossa equipe.

Mas o fora de campo a que me refiro vai além de tudo isso, compreende luxo, dinheiro e influência (basta olhar o número de seguidores dos atletas, um tanto inflacionado nesse período), tudo moeda do nosso tempo. O futebol tem uma particularidade constrangedora: movimenta somas astronômicas e levanta torcidas e esperanças nos rincões mais miseráveis do mundo. Quantas vezes já me peguei revoltada com os contratos vultosos, salários estratosféricos e estrutura nababesca em volta dos jogadores e do negócio da bola!

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As cifras me dão certa vergonha alheia porque a desigualdade desafina a orquestra mais sublime. O abismo constrange e deveria revoltar mais e mais gente. Saio dos gramados verdejantes e ricos do país de Trump e suas intempestividades para o Lago Paranoá, na nossa Brasília. Encontro mulheres que chegaram à elite da canoa havaiana de pires na mão, pelejando pelo direito de representar o país no Campeonato Mundial de Va'a Sprint, em Singapura, que ocorre de 19 a 31 de agosto.

As equipes femininas de canoagem de Brasília têm bons índice, atletas de alto rendimento e resultados que permitem sonhar, não fosse por uma questão: falta de dinheiro. O time Kaluanã vai disputar em todas as categorias, da Open à Master 40. Elas estão sem patrocínio, vendo o tempo passar, sem respostas dos órgãos que poderiam apoiar com passagens e estadia nessa empreitada caríssima até Singapura.

Aguardam recursos do Compete Brasília, programa brasiliense que apoia os atletas com custo logístico. Esperam respostas do governo federal e do Congresso Nacional. Mas a data da competição se aproxima, e nada de o dinheiro sair. E essa história não é isolada. Há mulheres acima dos 70 anos também classificadas para competir, a maioria do Minas Tênis Clube. Atletas que desafiam o tempo, o corpo e os limites impostos pela sociedade.

O esporte brasileiro, assim como tudo mais no país, é de uma desigualdade vergonhosa. Temos modalidades de elite com dinheiro a perder de vista, como o futebol. Outras que concentram ricos, como o tênis, o hipismo, o automobilismo, o surfe, praticamente dominadas por pessoas que têm como investir recursos próprios até provar valor e conseguir patrocínios.

Mas e todos aqueles que, mesmo mostrando resultados e conquistando índices, precisam abrir mão dos sonhos por não conseguir apoio para ir a campeonatos mundiais? Se for mulher e 40 , ainda mais difícil. Machismo e etarismo também reinam no esporte. Basta olhar os movimentos por remuneração, prêmios e patrocínios iguais para as mulheres. A quem interessa mulheres na linha de chegada? O patriarcado sempre será uma mão pesada sobre nossas cabeças e planos e, por isso mesmo, temos de lutar contra ele.

O futebol é mesmo uma fábrica imensa de alegria, faz parte da nossa cultura e da nossa economia. Movimenta nossas emoções. Acredito, porém, que precisamos ampliar horizontes. Olha o que já fez o atletismo por nós! Vejam o exemplo da ginasta Rebeca Andrade, nossa maior medalhista. Se um atleta se projeta, acaba atraindo marcas, que querem rosto e voz para vender produtos, de um refrigerante a um banco. E o apoio que precisam até chegar a esse dia? A verdade é que cada um que chega lá convoca nosso coração. Devemos colocar o nosso a serviço do esporte, de quem precisa. Estou na torcida pelas mulheres bravas da canoa.

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postado em 21/06/2026 05:15
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