Adalberto Maluf — secretário Nacional de Meio Ambiente Urbano, Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; copresidente da Coalizão Clima e Ar Limpo da ONU e da Coalizão pelo Resfriamento
A agenda do metano, que ganhou centralidade nas discussões do G7 sob a presidência da França, ocupa um espaço cada vez mais estratégico no debate internacional sobre clima e segurança energética, e não por acaso. Responsável por cerca de um terço do aquecimento global desde a Revolução Industrial, o metano (CH4) tornou-se um dos focos centrais da agenda climática justamente porque sua mitigação produz resultados quase imediatos. Diferentemente do carbono (CO2), que permanece na atmosfera por séculos, o metano tem vida média de cerca de 12 anos. Isso significa que reduzir suas emissões agora produz efeito climático imediato.
Em meio a um cenário internacional marcado por tensões energéticas, retrocessos na governança ambiental e urgência climática crescente, o metano emerge como um dos poucos pontos de convergência entre velocidade, viabilidade técnica e retorno econômico imediato.
Dados apresentados pela Agência Internacional de Energia reforçam a crescente atenção sobre o tema. Um dos pontos que mais chamam atenção são as emissões fugitivas de metano, um tipo de emissão ainda pouco visível e historicamente subestimado nos inventários globais. Elas são liberadas em operações de petróleo e gás por venting (liberação direta) e flaring (queima do gás).
O que emerge é um retrato de ineficiência sistêmica: o volume de metano desperdiçado nessas operações chega a cerca de 200 bilhões de metros cúbicos, o dobro do gás natural que passou pelo Estreito de Ormuz em 2025. Um volume que poderia abastecer milhões de residências e indústrias, além de fortalecer a segurança energética de países inteiros, mas que é simplesmente liberado na atmosfera.
Estamos na semana do Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, e um paradoxo é evidente: ao mesmo tempo em que o mundo discute segurança energética e independência de combustíveis fósseis, uma parcela significativa desse recurso é simplesmente liberada na atmosfera.
A boa notícia é que essa é, antes de tudo, uma agenda de soluções já disponíveis. Tecnologias para monitorar, evitar e capturar emissões de metano existem, são acessíveis e, muitas vezes, de baixo custo relativo. Não estamos diante de uma fronteira tecnológica a ser vencida, mas de uma fronteira de governança, regulação e incentivo econômico a ser atravessada.
A experiência internacional recente demonstra, no entanto, que limitar o foco ao setor energético é insuficiente, especialmente para países como o Brasil. No nosso caso, a agropecuária responde pela maior parcela das emissões de metano, cerca de 75,8%, o que reforça a relevância de soluções já em curso: recuperação de pastagens degradadas, melhoramento genético, intensificação sustentável da produção e adoção de tecnologias de manejo mais eficientes. Mitigar metano na agropecuária não significa reduzir produção. Significa reorientar sistemas produtivos com base em ciência e política pública, aumentando produtividade por área e reduzindo a intensidade de emissões por quilo produzido.
Já a gestão de resíduos é ainda mais direta: começa dentro de casa, na separação do lixo, e segue com a coleta seletiva e o tratamento adequado dos rejeitos. A decomposição inadequada dos resíduos orgânicos em lixões e aterros é a segunda maior fonte de emissão de metano no Brasil, correspondendo a 15,9% das emissões nacionais do gás. Ao mesmo tempo, é uma das frentes com maior potencial de resposta rápida e melhor relação custo-benefício.
O resíduo que apodrece num aterro não é apenas um problema sanitário, é energia desperdiçada, emissão evitável e oportunidade econômica ignorada. O Brasil já deu passos importantes nessa direção. Nos últimos anos, o país vem estruturando essa agenda por meio do Plano Clima, do Planaro (Plano Nacional de Redução e Reciclagem de Resíduos Orgânicos)e do Plano Nacional de Fertilizantes. Esses instrumentos sinalizam uma mudança relevante de paradigma: resíduos orgânicos deixam de ser passivos ambientais e passam a ser insumos estratégicos.
O enfrentamento dos lixões também é decisivo. Encerrar esses passivos exige investimento público e coordenação federativa, mas também abre uma oportunidade concreta: utilizar a captura de metano como mecanismo de financiamento para essa transição. Trata-se de transformar um problema ambiental em vetor de solução — e de demonstrar, na prática, que justiça social e ação climática não são agendas separadas.
A centralidade do metano no G7 sinaliza uma mudança importante: a agenda climática passa a priorizar medidas de impacto imediato e alta viabilidade. O Brasil reúne condições para liderar esse movimento e se posicionar na linha de frente da ação climática global.
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