ARTIGO

Mãe África, berço da humanidade

O continente é o terceiro maior do planeta. Traz em seu bojo 54 países totalmente livres e independentes. Honestidade, ética, amor ao próximo são virtudes naturais dos povos africanos.

pri-0904-opiniao Africa Civilização -  (crédito: Caio Gomez)
pri-0904-opiniao Africa Civilização - (crédito: Caio Gomez)

Antônio Carlos Côrtes advogado, psicanalista, membro da Academia Rio-grandense de Letras

A palavra África consta ser originária de fontes fenícias, gregas e mesmo romanas. Entre os primeiros, a expressão afa queria dizer poeira, terra. A história registra que os últimos, ao conquistarem Cartago, lá por 146 a.C, rotularam suas populações de Afri, recebendo a região Afri terra antes citada.

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Na língua grega, o chamamento diria respeito a um local sem frio e de muito sol. Aliás, doutos dizem que o frio não existe, e sim a ausência do calor. Mas o termo Alkebuian se aproxima do que hoje conhecemos como "mãe da humanidade".

A história registra que o Primeiro Congresso dos Estados Africanos Independentes realizou-se em Gana, a 15 de abril de 1958 (ano da primeira conquista pelo Brasil da Copa do Mudo de Futebol, apenas para nos situarmos na linha de tempo). Presentes as representações do Egito (palavra de passe, segundo as ciências espirituais), Etiópia, Libéria, Líbia, Marrocos, Sudão, Tunísia e Camarões. Por óbvio, África do Sul não participou, pois o ato apresentou a evolução da política de libertação no continente africano e aquela nação vivia então o auge do apartheid.

Decorridos cinco anos após aquele importante evento, 30 países da região promoveram novo encontro em Adis Abeba, na Etiópia, em que o anfitrião foi o imperador Haile Selassie. Cerca de dois terços do continente, por força própria, já havia conquistado a independência, separando-se dos estados imperiais europeus.

Naquele encontro, a Organização da Unidade Africana foi criada com o propósito de apoiar a descolonização de Angola, Moçambique, África do Sul e Rodésia do Sul. Foi assinada uma Carta de princípios basilares como referência para as relações entre os povos e entre os estados-membros. Selassie, em discurso histórico, vaticinou: "Possa esta convenção da união durar mil anos."

O Dia de África, celebrado em 25 de maio, é um marco histórico mundial. Em 2015, lapidaram a temática Ano do Empoderamento das Mulheres e o Desenvolvimento em direção à Agenda de África 2063.

Já no título, nós nos referimos a "berço", pois o continente é o terceiro maior do planeta. Traz em seu bojo 54 países totalmente livres e independentes. Lembra um arco-íris, lindo, ao expressar todas as cores, a representar culturas diferenciadas, línguas nativas por volta de duas mil e a abarcar visão de cenário cinematográfico em terceira dimensão. Honestidade, ética, amor ao próximo são virtudes naturais dos povos africanos.

Afinal, são cerca de 30 milhões de quilômetros quadrados, perfazendo 20% de toda a área de nosso planeta. Acolhe mais de um bilhão de habitantes. Religiões e tradições são acatadas e respeitadas em seus fundamentos milenares.

Arqueólogos, em suas descobertas de fósseis, revelam que os primeiros hominídeos são africanos. Teriam surgido por volta de 200 mil anos atrás.

A língua portuguesa é língua oficial em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique. Eis uma razão pela qual o Brasil também se identifica com essas nações. O geógrafo e professor Milton Santos, de saudosa memória, cujo centenário de nascimento estamos a comemorar neste 2026, dizia que o Oceano Atlântico não diminui nem apaga a profunda ligação histórica, cultural e estrutural do Brasil com a África.

No carnaval deste ano, o autor destas linhas, integrante do Grupo Palmares, que deu as bases para o Dia da Consciência Negra 55 anos atrás, foi convidado a desfilar pela Escola de Samba Portela. Experiência indescritível, de muita emoção. Ala de baianas, Velha Guarda, alegorias gigantes, bateria, harmonia, samba, evolução e graça no bailado da porta-bandeira com o mestre-sala. Tudo muito lindo e maravilhoso. O Éden é a Sapucaí. Ponto.

Sob o toldo branco, movia-se um carro alegórico a representar a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Impossível conter as lágrimas a correr no rosto deste escriba. Em reverente silêncio, fiz prece de gratidão à Mãe África e seus orixás, pois tudo o que somos veio do continente negro. Berço de meus ancestrais e de boa parte dos desfilantes e de quem presenciava o radioso espetáculo.

 

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Por Opinião
postado em 30/05/2026 06:00
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