
Ana Flauzina — compositora e professora da Universidade Federal da Bahia (Ufba)
"Não há poder de fato sem poder cultural", sentencia o cineasta etíope Haile Gerima. A frase ajuda a entender um movimento decisivo no Brasil contemporâneo: a consolidação do agro não apenas como força econômica e política, mas como potência simbólica.
Ao agro nunca faltou poder. Afinal, estamos falando de uma estrutura histórica de concentração de terra, herdada do período colonial, com acesso privilegiado ao Estado e aos recursos públicos, que se perpetua até hoje. Nas últimas décadas, porém, observa-se um avanço decisivo, em que o setor passa a disputar o imaginário social e a narrar o país.
Essa virada passa, indiscutivelmente, pela música. O que começou como um movimento marginalizado, transformou-se em uma indústria altamente financiada e organizada. Nesse processo, o sertanejo comercial deixou de ser expressão regional para se tornar hegemonia cultural.
A pesquisa "Cultura no Espelho", da Quaest, mostra o sertanejo como o gênero mais consumido e o que mais "representa o Brasil". Essa inflexão política redefine a imagem do agro, que, ao ganhar centralidade simbólica, passa de atraso a inovação e futuro. "O agro é tech, o agro é pop" é o slogan dessa transposição estratégica na disputa pelo poder cultural.
Mas se esse é um dado evidente, há consequências que seguem fora do debate público.
De saída, é importante lembrar que esse circuito empresarial é amplamente sustentado por recursos públicos. São shows financiados por prefeituras, políticas culturais e incentivos indiretos, incluindo contratações regulares e casos sob investigação por suspeitas de superfaturamento e uso indevido de verbas públicas. Trata-se de uma engrenagem que movimenta bilhões e que, em larga medida, se apoia no erário. O agro, historicamente estruturado por políticas de apoio estatal, que vão do crédito rural subsidiado, passando por isenções fiscais até os programas recorrentes de renegociação de dívidas, encontra na esfera cultural novas formas, menos explícitas, mas igualmente relevantes, de sustentação com recursos públicos.
O nó da questão é que, se o financiamento é público, a representação não é. Fato é que a indústria sertaneja permanece um espaço de ocupação quase exclusiva de homens brancos, sendo o racismo elemento central na exclusão das pessoas negras como artistas do gênero, a despeito de suas origens marcadas pela presença negra e da existência de artistas negros no campo. A conclusão é simples: nosso dinheiro banca o agro, mas o agro não nos banca.
Diante desse quadro, emerge a pergunta: pode um setor sustentado por recursos públicos operar com filtros raciais tão evidentes?
A resposta deve ultrapassar a crítica cultural e alcançar a esfera institucional. Afinal, estamos diante de um problema que envolve acesso ao trabalho, distribuição de recursos públicos e critérios de representação.
Considerando esse cenário, o Ministério Público do Trabalho pode ser instado a atuar, uma vez que lhe cabe o enfrentamento de práticas discriminatórias no acesso ao emprego. Da mesma forma, o Ministério da Cultura dispõe de instrumentos concretos para intervir por meio da definição de critérios para financiamento público, incorporando parâmetros de diversidade racial e de gênero. Além disso, Tribunais de Contas e gestores municipais podem estabelecer diretrizes que ampliem a pluralidade artística nas programações financiadas com recursos públicos.
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A incorporação de critérios de diversidade no setor pode abrir espaço para outras narrativas, pautando questões relevantes: Que histórias emergem quando pessoas negras ocupam o centro da cena? O que significa fazer circular narrativas de mulheres negras que rompam com a submissão feminina tão recorrente nas canções? Há espaço, no repertório dominante, para o Brasil rural real e suas disputas?
Essas indagações sinalizam a expansão das redes criativas e, acima de tudo, a necessidade premente de assegurar que recursos públicos não reproduzam e aprofundem desigualdades estruturais.
Se há poder na cultura, o "agronejo" organiza o Brasil à imagem de quem o controla. Ao fim e ao cabo, trata-se de um artefato cultural masculino e branco, projetado sobre um país majoritariamente feminino e negro. Diante dessa constatação, enfrentar as lógicas predatórias do agro na esfera política passa, necessariamente, por expor seu braço simbólico e disputar quem narra o Brasil.

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