José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras
Nunca fui fanático por Copa do Mundo, mas sempre um torcedor engajado do Flamengo. Com meus 96 anos de vida, talvez eu seja o mais antigo torcedor do time, ou um deles.
No ano em que nasci, 1930, a Fifa (Federação Internacional de Futebol) realizou a primeira edição da Copa do Mundo de Futebol. Mas a Copa de que até hoje me recordo foi a de 1950. Eu viajava pela segunda vez de avião e ia, pela primeira vez, ao Rio de Janeiro para participar do Congresso Nacional da UNE (União Nacional dos Estudantes), como representante do Maranhão. O avião em que viajei era o Aero Commander 520, um avião de transporte leve do pós-Segunda Guerra, cujas aeronaves posteriormente foram transformadas em cargueiros leves por empresas de usados. Esse avião saía de São Luís, no Maranhão, às cinco horas da manhã. Pousava em Carolina, seguia para Porto Nacional e, em seguida, para Formosa, em Goiás. De lá, o avião partia rumo a Belo Horizonte e terminava a rota no Rio de Janeiro, aonde chegava às seis da tarde. Ao sobrevoarmos o Rio de Janeiro, o comandante comunicou de sua cabine que o Uruguai acabara de marcar o gol que o faria Campeão do Mundo, derrotando o Brasil. Eu não entendi bem o que aquele anúncio significava, pois estava exausto após um dia inteiro nesse avião, que não tinha pressurização e balançava muito. Com todos os passageiros enjoados e ainda vomitando, o cheiro na aeronave estava terrível. Nosso mal-estar físico se misturava com o do medo de quem viajava de avião pela primeira vez. Ao saltar, quase mortos, passageiros do Norte e do Brasil central, eram trapos humanos.
Depois, meu padrinho, o desembargador do Rio Ivan Castro de Araújo e Souza — primo do meu pai —, explicou-me a tragédia nacional que aquele gol significava. Assim, só ao longo do tempo pude avaliar o impacto real daquela derrota para a história do nosso futebol.
Outra Copa de que não posso me esquecer é a de Guadalajara, no México — um dos países onde se realiza a atual —, na qual o Brasil conquistou o título, pela terceira vez, de campeão do mundo: quando presidente da República, visitei o México e fui a Guadalajara. O povo de lá, ainda tomado de amor pelo Brasil, ao ver passar meu carro, gritava: "Pelé, Pelé, Pelé".
Agora, vamos concorrer a uma nova Copa do Mundo, sem notáveis jogadores; a figura depositária de nossas esperanças é a do treinador Carlo Ancelotti, um italiano simpático, experiente e inspirador de confiança. Particularmente, gostei de ele ter convocado o Neymar, que ainda é uma legenda do futebol mundial.
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Mas eu sempre serei um irredutível otimista em relação ao Brasil: em qualquer setor em que o país esteja envolvido, nele acredito e nunca desaparece em mim a esperança. Para abalizar meu otimismo, tenho o meu exemplo e agradecimento — porque gratidão reservo a Deus, com a minha fé inabalável: acredito em Sua proteção como responsável por meu destino e minha vida. Veja o meu exemplo: nascido em uma pequena cidade do interior do Maranhão, sem família rica, filho de uma retirante da seca do Nordeste e de um pequeno promotor público, cheguei a presidente da República cinco anos após tornar-me membro da Academia Brasileira de Letras, o que minha mãe considerava ser meu maior título.
Assim, espero e desejo que saiamos dessa Copa com o hexacampeonato, graças à capacidade do Brasil de superar-se, à sua criatividade e ao seu espírito de luta: jamais desistir, sempre caminhar, nunca retroceder. Somos o único país do mundo cinco vezes campeão, reconhecidamente detentor de um estilo próprio, chegando a criar o que se chamou futebol-arte.
Esta será uma Copa singular. Três países envolvidos, México, Canadá e Estados Unidos, com todas as equipes participando e populações deslocadas de todos os lugares do mundo a torcer pelo seu país. A nota desagradável foi o tratamento do governo do presidente Trump ao árbitro da Somália Omar Artan: eleito o melhor árbitro africano em 2025, mas impedido de apitar nos Estados Unidos com seu passaporte apreendido e obrigado a regressar à sua pátria. É um gesto muito próprio do mandatário americano, mas desnecessário.
Que venha o hexa, que o Brasil brilhe e que o caneco, como popularmente se chama a taça, repouse em nosso território, para alegria do povo brasileiro.
Caso não tenhamos vitória, não devemos responsabilizar nossos jogadores. Eles vão dar o melhor de si pela nossa bandeira e pelo canarinho.
Esperança — hexa Brasil!
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