Visão do Correio

Proteção às mulheres deve ser contínua e estratégica

O feminicídio raramente é uma ocorrência isolada. Normalmente, ele é o ápice de uma sequência de abusos que escalam em gravidade

Em um país que apresenta cenário crítico e em escalada da violência letal contra as mulheres, o combate a essa realidade é sempre urgente. Ferramentas de denúncia e campanhas de conscientização são algumas das ações necessárias para banir essa tragédia que marca o Brasil.

Os dados recentes da segurança pública apontam que o primeiro trimestre deste ano foi o período mais violento em relação a esse tipo de registro desde o início da série histórica, em 2015. De acordo com os levantamentos do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) e do Ministério da Justiça e Segurança Pública, houve 399 feminicídios entre janeiro e março. A soma é cerca de 7,5% maior do que a estatística no mesmo período de 2025 (371 casos).

Iniciativas estratégicas — com base em inovação e tecnologia — atuam como pilares essenciais e complementares na linha de frente dessa batalha contínua. Nesse contexto, linhas de comunicação com as autoridades precisam ser constantemente modernizadas e ampliadas. O Disque Denúncia 181, que trata sobre qualquer tipo de crime, e o Ligue 180, especializado na pauta de gênero, são serviços nacionais, gratuitos e anônimos que vêm fazendo a diferença.

Diante da situação de vulnerabilidade que um grande número de vítimas enfrenta, muitas não expõem seus agressores por medo de retaliação, dependência financeira ou psicológica. Por isso, além da fundamental estrutura de apoio, mecanismos que possibilitem comunicar o abuso oficialmente a uma autoridade significam a chance de se livrar desse horror.

Outro ponto primordial são campanhas que conscientizem como agir diante da violência de gênero e mostrem que esse crime atinge pessoas indistintamente. A "Um.Oito.Zero", mobilização proposta por uma organização não governamental, reúne personalidades, inclusive com a participação de quem já foi vítima, para motivar a denúncia. Essa visibilidade é importantíssima, uma vez que, por mais improvável possa parecer, especialistas apontam que muitas mulheres ainda não sabem como pedir ajuda. 

Fato é que o feminicídio raramente é uma ocorrência isolada. Normalmente, ele é o ápice de uma sequência de abusos que escalam em gravidade. Intervir nos estágios iniciais — ameaças de morte, descumprimento de medidas protetivas, posse ilegal de armas por parte do agressor e violência em todos os níveis — é o que efetivamente salva vidas e quebra o ciclo antes que ele se torne fatal. Oferecer canais de auxílio, descentralizando o peso da denúncia das costas exclusivas da vítima e convocando toda a população a agir anonimamente, é um dos caminhos para garantir o direito de viver das brasileiras. 

A segurança das mulheres é um dever coletivo, e não somente das forças policiais. O Brasil precisa estancar essa ferida aberta que compromete profundamente a estrutura do país e deixa marcas permanentes nas famílias e na sociedade.

 


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