
A rejeição pela Polícia Federal de mais uma proposta de Daniel Vorcaro para ampliar e confirmar o que as investigações já levantaram reforça a percepção de que o ex-dono do Banco Master tem muito a ganhar nessa queda de braço. Há meses, ele vem cozinhando seus interrogadores, oferecendo aquilo que, nas palavras de uma fonte envolvida nas negociações, é classificado como "pastel de vento" — apetitoso por fora, mas, por dentro, pouco traz o que se aproveite. E, assim, as apurações claudicam.
Ao contrário do tenente-coronel do Exército Mauro Cid que, tão logo viu a família ser arrastada para o escândalo, decidiu erguer um escudo protetor que a preservasse ao contar aquilo que sabia sobre a tentativa de golpe do ex-presidente Jair Bolsonaro, Vorcaro funciona sob outra lógica. Essa indica a existência de uma espécie de omertá, o código de silêncio que rege a moral dos homens de honra da Cosa Nostra siciliana. Significa que, quando alguém cai, cala-se para que o ecossistema criminoso permaneça preservado. Tal pertencimento é que faz com que as máfias existam e atravessem os tempos com o poder e as conexões capazes de se regenerar.
O sistema corrupto em que Vorcaro opera não foi criado por ele, tampouco os personagens do qual fazem parte, citados em inúmeras reportagens. Todos existiam antes, mas não estavam organizados tal como o ex-banqueiro os organizou. E eles queriam e se deixaram organizar. Os benefícios que auferiram eram grandes demais para ficarem de fora da bandalheira. Riscos baixos e vantagens permanentes.
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O ineditismo desse esquema é o alcance dos tentáculos. Em qualquer direção que os investigadores olhem, percebe-se a sombra do Master. Essa onipresença é que assusta. O que veem é um organismo vivo. Há uma luta para manter o avanço da doença, um esforço que não atenue a ação do vírus.
Percebe-se, assim, que Vorcaro tem dado o norte às suas figuras mais próximas — o pai, o primo e o cunhado, igualmente presos — sobre como agir, por que calar e o que ceder. Um recado óbvio: resistir à pressão compensa, e é necessário para a perenidade da estrutura criminosa.
Vorcaro manobra com as camadas de influência que construiu. Não pede ajuda, uma vez que sabe que tais estruturas são fortes o suficiente para que mantenha o projeto, extensivo ao núcleo duro de sua organização, da prisão domiciliar. Diligentemente, impõe um teto ao inquérito e enfraquece a denúncia. Se alguém falar, possivelmente acrescentará pouco.
Antes atormentados pela ameaça de verem projetos serem interrompidos por uma temporada na cadeia, alguns atores restabeleceram a confiança de que a impunidade é um instituto fundamental à manutenção das elites brasileiras fortes. Apesar do susto, os nacos de poder tendem a estar preservados.
É com eles que Vorcaro conta para que o organismo cumpra o papel de protegê-lo.

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