Junho não é um mês. É uma sentença, uma sina, uma certidão de que sua vida neste planeta tem um atestado de procedência. Em junho, uma região revela ao Brasil o quanto ambos, mês e país, são coisas únicas, com código de barras pessoal e intransferível. Desde o primeiro dia, o sexto mês do calendário abre um portal no Nordeste brasileiro. Portal colorido, festivo, com regras e tradições próprias, junho chega balançando sua força intensa da Bahia ao Maranhão.
Junho é sinônimo de saudade. Ou seria o contrário? Não há um nordestino que não tenha uma lembrança que aquece a memória e acolhe as lágrimas. O pai que compra os fogos, a mãe que alerta sobre os perigos destes, e tem os avós. Ah! Os avós. Em junho, a dupla ancestral transcende e mostra ao mundo que o amor está na fogueira, nas canções, nas roupas novas compradas exclusivamente para aquele mês, na mesa colorida de gostosuras e compensações.
Junho é uma paquera que se concretiza na quadrilha. Mas também pode ser o fim de uma paixão desejada, que se compensa com cachaça e licor. De toda forma, a gente se mexe nesses dias em que dizemos sim a quem te convida para dançar ou para comer amendoim.
Junho é gula, é roupa colorida e mãos juntas seguindo o compasso das danças ou seguindo quem te convidou para sair do terreiro e conversar atrás das barracas.
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Mas o mês tão desejado também é polêmico. Na Bahia, uma fogueira arde e lança faíscas num debate acalorado. O Ministério Público decidiu cortar o cachê de artistas muito procurados neste mês festivo. Um deles, considerado o quarto santo padroeiro de junho, é o cantor Flávio José. Cultuado, celebrado e adorado, Flávio viu uma sentença do MP baiano cortar R$ 100 mil do seu cachê em todos os contratos a serem assinados pelas prefeituras que o convidaram para cantar.
Em nome da transparência das contas públicas, que aliás, eu defendo, o valor a ser pago a esse artista e outros listados, teria que diminuir em prol da sanidade financeira de municípios que mal se sustentam no resto do ano.
O Ministério Público tentou negociar com representantes do cantor o valor das apresentações em festas públicas na Bahia. Pediu que ele diminuísse de 350 para 250 mil o valor de cada apresentação. Flávio respondeu questionando por que artistas sertanejos não tiveram o mesmo corte e aproveitou para cobrar duas apresentações ainda não pagas pelo governo do estado.
Talvez inspirado pelos versos iniciais de sua famosa canção Tareco e mariola que dizem : "Eu não preciso de você, o mundo é grande e o destino me espera. Não é você que vai me dar na primavera, as flores lindas que eu sonhei no meu verão..." o sanfoneiro não cedeu.
Abdicou de 15 shows no estado, ou mais de 5 milhões em cachês, colocou a sanfona nas costas e vai cantar seus versos em outros estados nordestinos. O debate continua, o MP-BA alega que fez o certo, os fãs choram a sanfona silenciada, as prefeituras buscam substitutos e a quadrilha perdeu o ritmo. Em sua casa ou cochilando no ônibus que transporta sua banda, eu só imagino Flávio dedilhando sua sanfona e dedicando os versos finais de Tareco e mariola ao MP-BA: "Você foi longe me machucando, provocou a minha ira. Só que eu nasci entre o velame e a macambira. Quem é você pra derramar meu mugunzá?".
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