visão do Correio

Calor recorde na Europa é sintoma do novo futuro

A mitigação total do Acordo de Paris falhou. As políticas públicas precisam migrar urgentemente para a adaptação e a minimização de danos.

A Europa enfrenta, neste início de verão, o reflexo mais violento de uma crise que há muito deixou de ser uma projeção de futuro. Desde 18 de junho, a França contabiliza ao menos 40 mortes por afogamento, fruto da busca desesperada de cidadãos por alívio em rios e mar diante de temperaturas sufocantes. Nessa terça-feira, o país registrou a madrugada mais quente de sua história, com os termômetros sustentando marcas acima dos 25°C em pleno período noturno. O fenômeno não é isolado: Reino Unido, Itália, Espanha e Bélgica também operam sob alerta máximo, paralisados por uma massa de ar quente que desafia a infraestrutura urbana e a saúde pública do continente.

O cenário atual enterra o ceticismo e consolida o "novo normal" da crise climática. A recorrência e a intensidade dessas ondas de calor sinalizam que a humanidade provavelmente ultrapassou o ponto de não retorno das mudanças climáticas, falhando em cumprir as metas do Acordo de Paris, que pretendia limitar o aquecimento global a níveis "bem abaixo" de 2°C, em relação aos níveis pré-industriais. Agora, a discussão não gira mais em torno de como conter o aumento das temperaturas globais, mas de como gerenciar as consequências de um ecossistema já desestabilizado.

Os números dão dimensão ao que os termômetros apenas sugerem. A onda de calor de 2003 matou mais de 70 mil pessoas na Europa em questão de semanas — um marco que, à época, parecia excepcional. Duas décadas depois, eventos de intensidade equivalente tornaram-se rotina de verão, ainda que não na magnitude de mortes. Sistemas de saúde projetados para outras realidades climáticas entram em colapso operacional: hospitais lotados, serviços de emergência saturados e redes elétricas que cedem sob a demanda de ar-condicionado, que, por sua vez, aquece ainda mais as cidades. A infraestrutura urbana europeia, construída para um clima que não existe mais, virou um passivo em tempo real, e o custo de adaptá-la cresce a cada verão que passa sem resposta à altura.

Diante dessa realidade, a reação dos governos permanece marcada por lentidão crônica. As cúpulas climáticas e os discursos diplomáticos continuam distantes da velocidade exigida pelos fatos. Enquanto líderes debatem prazos de transição energética para as próximas décadas, o impacto é sentido agora, na pressão sobre as redes elétricas, na quebra de safras agrícolas e na mortalidade da população mais vulnerável, que, historicamente, arca com os maiores custos de uma industrialização da qual pouco se beneficiou.

O veredito é pragmático e desconfortável: a mitigação total do Acordo de Paris falhou. As políticas públicas precisam migrar urgentemente para a adaptação e a minimização de danos. Celebrar promessas de descarbonização futura enquanto as capitais europeias registram recordes térmicos é uma hipocrisia que o pragmatismo econômico e social não pode mais tolerar. 

Além disso, o que ocorre na Europa não é um alerta distante. O Brasil entra neste segundo semestre sob a ameaça de um Super El Niño, com o Sul exposto a chuvas devastadoras e o Norte e o Nordeste caminhando para secas severas. Se o calor europeu não foi suficiente para acelerar o planejamento preventivo, que as imagens de Paris sufocada sirvam ao menos para lembrar que o clima não aguarda o calendário político.

 

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