ARTIGO

A Copa ideológica

As partidas permitem aferir a intenção de voto na próxima eleição. Ouso afirmar que o bolsonarismo é mais forte do que o lulismo nas arenas do país de Donald Trump

Há mais do que uma partida de futebol nos jogos do Brasil na Copa do Mundo aqui nos Estados Unidos. As partidas permitem aferir a intenção de voto na próxima eleição. Ouso afirmar que o bolsonarismo é mais forte do que o lulismo nas arenas do país de Donald Trump. Basta caminhar entre os torcedores, ouvir comentários, pinçar opiniões e testemunhar o apoio maciço à entrada de Neymar em campo na vitória contra a Escócia.

A Seleção é o retrato de um país dividido. Quando o camisa 10 entrou em campo na partida de sexta-feira, foi possível ouvir um súdito ironizando: "Vai lá, entra em campo, agora, e responde na bola a quem te chamou de jogador de 'home office'".

Menos politizada do que em 2022, a Seleção deixa a esquerda carente de um xodó para chamar de seu. Ouvi nas três partidas na fase de grupos adeptos da esquerda sentindo falta do centroavante Richarlison. O camisa 9 representava o antagonismo a Neymar na Copa do Mundo disputada no Catar. O Pombo teve gatilhos nas redes sociais a cada bola na rede.

A política está infiltrada nas piadas na entrada no estádio. Uma delas de que o problema do Brasil é a direita. Uma referência aos problemas em série de Carlo Ancelotti no setor. O italiano ficou sem os laterais-direitos Wesley, Vanderson e Éder Militão, perdeu Estêvão e Rodrygo e torce para que Raphinha se recupere a tempo de voltar a jogar na Copa.

A Seleção de 2022 causava ruídos na política. Tite e as principais lideranças ficaram bravos com o então presidente da CBF, Rogério Caboclo, por convencer Jair Bolsonaro a receber a Copa América de 2021 no Brasil no meio da pandemia. O torneio serviu para minar o trabalho de Tite, campeão do torneio dois anos antes contra o Peru, no Maracanã, e fortalecer o maior rival. A Argentina derrotou o Brasil por 1 x 0 no Rio. 

Inclinado à esquerda, Tite disse mais de uma vez que o Brasil não iria ao Palácio do Planalto em caso de conquista do hexa. O Brasil deu adeus nas quartas de final contra a Croácia. Os jogadores têm evitado divididas políticas nas entrevistas coletivas. Parecem fechados contra eleições e focados na campanha pelo hexa. 

O meia Lucas Paquetá foi questionado sobre a declaração do presidente Lula de que Neymar é o primeiro jogador "home office" do Brasil na Copa e chutou o questionamento para escanteio. "Cada um na sua vida passou por momentos difíceis. A gente aprende desde cedo a blindar o que vem de fora porque não é isso que nos move, não é isso que vai nos fazer alcançar um objetivo, um sonho", disse, em uma resposta saindo pela tangente. 

Ao contrário de outras seleções, criou-se uma bolha contra distrações ao que interessa ao grupo no momento mais delicado do futebol brasileiro: o fim da abstinência de cinco Copas consecutivas sem título. Se a sexta estrela não chegar nesta, o hexa será de tempo na fila. 

"A gente sabe que é o trabalho e a dedicação que é o que a gente faz dentro de campo. A gente tenta filtrar o que pode servir de combustível e seguir adiante com nosso trabalho, pois é assim que a gente conquista as coisas", minimizou Paquetá. 

Até mesmo o debate sobre a camisa vermelha dos goleiros, uma suposta cor do segundo uniforme do Brasil na Copa aprovada pelo ex-presidente da CBF Ednaldo Rodrigues e vetada pelo atual, Samir Xaud, começou a causar ruídos políticos na Seleção, porém o foco foi rapidamente apagado com documentos oficiais da Fifa. Há uma certeza: a eliminação precoce do Brasil ou o hipotético hexa vão colocar de vez a outra Copa na rua: a do voto.

 

Mais Lidas