ARTIGO

Para que o direito chegue ao cidadão

Às vezes, o problema não está na ausência da política pública, mas na incapacidade de torná-la acessível. Sem comunicação pública eficaz, até boas políticas podem chegar tarde, chegar mal ou não chegar

Jorge Duartepresidente da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública)

Há uma falha das instituições públicas que quase nunca aparece nas estatísticas, mas é fácil perceber quando prestamos atenção. Ocorre quando o serviço existe, o atendente sabe, a lei prevê, o regulamento concede, o aplicativo está no celular, a campanha está na rua, mas o cidadão não sabe, não entende o que fazer, perde o prazo, perde-se no caminho ou desiste antes de começar. Todos vimos isso. Às vezes, o problema não está na ausência da política pública, mas na incapacidade de torná-la acessível.

Esses problemas aparecem concretamente quando um aposentado tem desconto indevido no INSS e nem percebe; quando os índices de vacinação caem; quando uma família perde inscrição em programa social porque a regra mudou e o alerta não chegou; quando o atendimento passa a depender do aplicativo, cadastro e senha digital, e deixa parte da população sem orientação suficiente; quando moradores de área de risco não recebem ou não entendem um alerta de emergência ou quando o contribuinte confunde orientação oficial com golpe. A maior parte da população não pode pagar advogado, despachante, contador, especialista em tecnologia ou alguém para enfrentar a fila em seu lugar. Quando a informação de interesse público é difusa, confusa ou fica escondida, avança quem domina o sistema, tem tempo ou ajuda. Os demais ficam pelo caminho. Kafka, nesse caso, quase parece história infantil.

Dados oficiais mostram a dimensão do problema. No INSS, 6,4 milhões de pessoas contestaram descontos associativos não autorizados em seus benefícios. O IBGE mostrou que 20,5 milhões de pessoas de 10 anos ou mais não usaram internet em 2024, e 45,6% delas disseram não saber usar. Não são apenas números. São situações concretas de cidadãos que ficam pelo caminho. O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2024 aponta outro obstáculo: 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais, e apenas 10% alcançam o nível proficiente de leitura, escrita e matemática. Também é preciso enfrentar uma herança incômoda: a comunicação estatal brasileira historicamente é marcada pela propaganda, pela promoção do poder e pela proteção da autoridade. A Constituição de 1988 apontou outro caminho: a publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deve ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, sem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos. Desrespeitar esse princípio não é apenas irregularidade jurídica, mas desvio de finalidade que enfraquece a confiança da sociedade nas instituições.

Mesmo quando há área de comunicação, parte do problema está no uso limitado dessa capacidade. Há profissionais altamente qualificados atuando, mas o Estado nem sempre valoriza, capacita e dá condições e autonomia para que essa competência seja orientada ao cidadão, e não apenas à divulgação de agendas, eventos e retórica oficiais. Comunicação na área pública não deveria entrar no fim do processo como operação de "dar divulgação". Comunicação pública é orientada à cidadania e deveria estar presente desde o começo, quando se decide como uma política vai chegar às pessoas. Comunicação na área pública é função de Estado, não de governo nem de promoção pessoal. 

Por isso, comunicação deve ser entendida como processo e infraestrutura de implementação das políticas públicas. Deve melhorar processos, ajudar o cidadão e produzir mudança. Leis, normas e recursos são indispensáveis, mas não bastam. Se a sociedade não entende, não acessa, não confia ou não adere, a política entrega menos do que poderia. Há uma diferença gigantesca entre divulgar uma política e fazer comunicação para que a política funcione.

É nesse contexto que se torna relevante debater a comunicação pública como política de Estado. De 16 a 18 de setembro, Brasília receberá o 4º Congresso Brasileiro de Comunicação Pública, o ComPública, realizado pela Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública) e pela Câmara dos Deputados, em parceria com TCU, UnB e Senado, e com apoio, até agora, de 14 instituições públicas e entidades. O tema, "Uma agenda para a cidadania", é um posicionamento: comunicação deve estar a serviço do cidadão, não do governante.

A ABCPública completa 10 anos, e a Câmara dos Deputados celebra 200. O encontro deve reunir profissionais de comunicação e gestores públicos para discutir como Estado e sociedade podem se entender melhor em um momento de desinformação crescente e baixa confiança nas instituições. Mas o congresso não interessa apenas a comunicadores e gestores públicos. Interessa a quem acredita que a democracia não se resume ao voto, mas depende de informação acessível, compreensível e utilizável, instituições abertas, escuta real e prestação de contas.

Comunicação não substitui boa política pública nem gestão competente. Mas, sem comunicação pública eficaz, até boas políticas podem chegar tarde, chegar mal ou não chegar. O direito à cidadania é o melhor argumento para levar comunicação a sério.

 

 

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