ARTIGO

Orçamento das agências reguladoras: finalmente uma boa notícia

Agências reguladoras fragilizadas por restrições financeiras perdem capacidade de fiscalização, de produção de conhecimento técnico e de resposta a práticas ilícitas cada vez mais sofisticadas

Sede da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) -  (crédito: Marcelo Camargo Agência Brasil )
Sede da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) - (crédito: Marcelo Camargo Agência Brasil )

O Projeto de Lei Complementar nº 73/2025 representa um passo decisivo para o fortalecimento da capacidade regulatória do Estado brasileiro ao vedar o contingenciamento pelo Executivo de recursos destinados às agências reguladoras federais. A proposta endereça um problema que há anos preocupa agentes públicos e setores produtivos: a crescente incompatibilidade entre as responsabilidades atribuídas às agências e os recursos efetivamente disponibilizados para o exercício de suas funções.

Nos últimos anos, as agências reguladoras sofreram sucessivos cortes orçamentários que comprometeram sua capacidade operacional, técnica e, principalmente, fiscalizatória. Ao mesmo tempo em que os orçamentos encolheram, as atribuições das agências aumentaram significativamente.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

 Vejamos o exemplo da ANP: as políticas relacionadas ao Programa Combustível do Futuro ampliaram muito as atribuições da agência em relação aos biocombustíveis, enquanto a necessidade de monitoramento de cadeias produtivas cada vez mais complexas exigiram da ANP um esforço crescente de fiscalização e regulação. Esse aumento de responsabilidades deveria ter sido acompanhado do fortalecimento orçamentário, mas ocorreu o oposto.

De acordo com dados da própria ANP, as despesas discricionárias autorizadas à agência — entre as quais estão os recursos destinados à fiscalização — sofreram uma redução real de aproximadamente 82% entre 2013 e 2024. Corrigido pela inflação, o orçamento destinado às atividades discricionárias caiu de R$ 749 milhões para apenas R$ 134 milhões no período. 

Em 2025, a situação se agravou com novos bloqueios e contingenciamentos, reduzindo os recursos efetivamente disponíveis para cerca de R$ 105 milhões. Esse quadro obrigou a agência a revisar contratos e a diminuir atividades de fiscalização, em um momento de expansão do setor energético nacional e de crescente sofisticação das fraudes praticadas por organizações criminosas.

De fato, com a infiltração do crime organizado na economia formal, as agências passaram a desempenhar papel estratégico no enfrentamento de práticas ilícitas que afetam setores inteiros da economia nacional. 

A Operação Carbono Oculto revelou mecanismos sofisticados de fraude envolvendo a comercialização de combustíveis, com potencial de causar prejuízos bilionários aos cofres públicos, danos aos consumidores, distorções concorrenciais e impactos negativos à política ambiental brasileira. A sofisticação das práticas criminosas identificadas evidenciou a importância de as agências reguladoras ganharem musculatura.

Nesse contexto, o PLC 73/2025 não representa apenas uma medida de proteção orçamentária. Trata-se de um instrumento de fortalecimento institucional que reconhece a natureza estratégica das agências reguladoras para o desenvolvimento econômico, a segurança jurídica e a defesa do interesse público. Ao impedir que o Executivo contingencie recursos arrecadados pelas agências para financiar suas atividades, o projeto busca assegurar previsibilidade administrativa e capacidade operacional compatíveis com as demandas enfrentadas por essas instituições.

O PLC encontra-se em estágio avançado de tramitação no Congresso Nacional. A proposta foi aprovada pela Comissão de Infraestrutura e pelo Plenário do Senado Federal em junho de 2026 e, agora, seguirá para apreciação da Câmara dos Deputados.  A expectativa é que a Câmara siga prestigiando a autonomia financeira das agências reguladoras para que o Estado brasileiro conte com um ambiente de negócios mais estável, competitivo e capaz de atrair investimentos de longo prazo. Em economias modernas, a qualidade da regulação tornou-se um dos principais fatores de confiança para investidores, consumidores e empresas.

O debate, portanto, transcende a discussão orçamentária. O que está em jogo é a capacidade do Estado de exercer adequadamente suas funções regulatórias em setores estratégicos da economia. Agências fragilizadas por restrições financeiras perdem capacidade de fiscalização, de produção de conhecimento técnico e de resposta a práticas ilícitas cada vez mais sofisticadas. 

A aprovação definitiva do projeto representará mais do que uma vitória das agências reguladoras. Será uma sinalização clara de que o Brasil está disposto a fortalecer suas instituições, aprimorar seus mecanismos de fiscalização e consolidar um ambiente regulatório à altura dos desafios de uma economia cada vez mais complexa e integrada. Em última análise, trata-se de investir na capacidade do Estado de garantir regras confiáveis, combater fraudes, estimular a concorrência e criar as condições necessárias para o crescimento econômico sustentado do país.

 

  • Google Discover Icon
Por Opinião
postado em 29/06/2026 04:00 / atualizado em 29/06/2026 05:30
x