ARTIGO

Intoxicação digital: a humanidade na era dos mendigos emocionais

Mendigos emocionais são pessoas que precisam de muitos estímulos para sentir pequenos fragmentos de alegria. São consumidores de telas, mas órfãos de interioridade

Augusto CuryPhD, psiquiatra, escritor, gestor e embaixador de projetos gratuitos para prevenção de transtornos emocionais

Desde que Steve Jobs apresentou o iPhone ao mundo, em 2007, a humanidade não apenas colocou um computador no bolso; colocou uma usina de estímulos dentro da própria mente. Vieram, na esteira desse terremoto tecnológico, as redes sociais, os vídeos curtos, a recompensa instantânea, a dopamina barata, a distração sem pausa e a emoção sem profundidade. O ser humano, que antes precisava contemplar, esperar, conversar, frustrar-se e construir, passou a deslizar o dedo para obter migalhas de prazer. Nunca estivemos tão conectados às máquinas e tão desconectados de nós mesmos.

Como psiquiatra publicado em dezenas de países, venho denunciando, muitas vezes como um pensador solitário, que a humanidade entrou na era dos mendigos emocionais. Mendigos emocionais são pessoas que precisam de muitos estímulos para sentir pequenos fragmentos de alegria. São consumidores de telas, mas órfãos de interioridade. São ricos em imagens, mas pobres em sentido. São espectadores do mundo, mas não autores da própria história.

As redes sociais venderam comparação. E a comparação, quando não é gerenciada, torna-se uma fábrica de ansiedade. Há uma síndrome comparativa em três níveis que tenho observado: compara-se o corpo, compara-se o sucesso e compara-se a felicidade. No primeiro nível, nasce a ditadura da beleza, que transforma o corpo humano em mercadoria e faz milhões de jovens se olharem no espelho como inimigos de si mesmos. No segundo, nasce a ditadura do sucesso fácil, em que todos parecem vencer e brilhar sem esforço e sem disciplina. No terceiro, nasce a ditadura da felicidade artificial, em que ninguém pode sofrer ou fracassar. Mas não há felicidade sem dor elaborada. Não há maturidade sem frustração. Quem foge de toda dor se torna frágil para viver.

Os vídeos curtos treinaram a mente a abandonar a profundidade. O pensamento crítico, que precisa de tempo, silêncio e elaboração, passou a competir com estímulos de segundos. A juventude está sendo educada por algoritmos que conhecem seus impulsos, mas não seus sonhos. O algoritmo não ama nem forma caráter. Ele apenas captura atenção, a moeda mais valiosa do século. Quando a atenção é sequestrada, o eu deixa de ser gestor da mente e passa a ser refém da próxima notificação. Muitos não descansam nem quando estão parados, porque a mente continua correndo.

O excesso de estímulos intoxica o cérebro e empobrece a capacidade de contemplar o belo. A criança perde o encanto pelo brincar. O adolescente perde o encanto pelo diálogo. O adulto perde o encanto pela vida simples.

Estamos na era da alienação social, da mentira refinada, da dissimulação estética e da vida encenada. Milhões vivem personagens. Postam uma felicidade que não sentem, uma segurança que não têm, uma prosperidade que não construíram, uma beleza que não reconhecem em si mesmos. O palco digital, quando não é gerenciado, transforma seres humanos em atores angustiados. O aplauso dura segundos. O like anestesia, mas não cura a carência. O compartilhamento amplia a imagem, mas não aprofunda a alma. O ser humano está adoecendo não por falta de tecnologia, mas por falta de gestão da emoção diante dela.

A questão não é demonizar o smartphone; é impedir que ele se torne o senhor da nossa mente. A questão não é destruir as redes sociais, nem demonizar as inteligências artificiais, mas usá-las criticamente, sem perder nossa autonomia e nosso pensamento. Precisamos ensinar crianças, jovens e adultos a usarem criticamente a tecnologia, inclusive com uma nova disciplina escolar. Também deveríamos praticar um jejum digital semanal para proteger a mente, desacelerar os pensamentos, questionar padrões irreais e voltar a conversar olhando nos olhos.

Precisamos formar o Eu como autor da própria história, e não como escravo das janelas virtuais. Precisamos ensinar que a mente mente quando não é gerenciada. Ela mente quando diz que todos são mais felizes e bem-sucedidos. Ela mente quando transforma uma tela em tribunal e a autoestima em ré. Precisamos de educação socioemocional, gestão da emoção, pensamento crítico e uma nova ética digital. Caso contrário, teremos máquinas cada vez mais inteligentes e seres humanos cada vez mais emocionalmente falidos. O futuro não será decidido apenas por quem dominar a inteligência artificial, mas por quem ainda conseguir dominar a própria mente.

 

 

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