Visão do Correio

Solidariedade nos escombros de Caracas

Quem interfere na política de um país assume uma responsabilidade sobre o seu povo, não apenas nos momentos de conveniência estratégica, mas especialmente nos momentos de colapso

Terremotos resultaram em mais de 2 mil mortos e cerca de 11 mil feridos. -  (crédito:  AFP)
Terremotos resultaram em mais de 2 mil mortos e cerca de 11 mil feridos. - (crédito: AFP)

Mais de uma semana após os terremotos que devastaram a Venezuela, bombeiros militares brasileiros e de outros países seguem retirando corpos dos escombros sob calor de 31°C, em meio a estruturas instáveis que exigem avaliação técnica antes de cada avanço. Na terça-feira, duas mulheres e um homem de 71 anos foram localizados e retirados. Na quarta-feira, mais duas vítimas. Ontem, operação dramática que mobilizou uma equipe internacional de socorristas salvou um homem de 43 anos. 

São números frios para a tragédia, mas que devem ser exaltados. Profissionais cruzaram fronteiras, deixaram suas casas para cavar entre escombros porque entenderam, antes de qualquer discurso, que vidas humanas não têm nacionalidade. É o melhor que a solidariedade internacional tem a oferecer, e merece ser dito com todas as letras. 

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Equipes de diferentes países trabalham, lado a lado, nos destroços de Caracas, partilhando cães farejadores, protocolos de biossegurança e o mesmo esgotamento. Essa teia de socorro voluntário, construída à base de competência técnica e humanidade, é a prova de que, quando o mundo decide agir, consegue agir bem. O problema é quando demora a decidir.

As primeiras 72 horas após um colapso estrutural são o intervalo em que a maioria dos sobreviventes pode ser resgatada com vida. Cada hora além disso tem um custo que não aparece em nenhum comunicado oficial, mas que qualquer bombeiro que já trabalhou em escombros conhece de cor. A mobilização internacional na Venezuela foi lenta, fragmentada e aquém do que a dimensão da tragédia exigia. Enquanto equipes voluntárias de países como o Brasil e a República Dominicana chegavam com os próprios recursos, potências com maior capacidade de liderar uma resposta coordenada enrolavam-se em protocolos e conveniências.

É aqui que a contradição se torna indefensável. Espera-se mais dos Estados Unidos, que, nos últimos meses, assumiram papel central na reconfiguração política venezuelana, apoiando o governo de transição, negociando uma dívida de US$ 240 bilhões e sinalizando uma nova arquitetura de influência na região. Quem interfere na política de um país assume uma responsabilidade sobre o seu povo, não apenas nos momentos de conveniência estratégica, mas especialmente nos momentos de colapso. O mesmo vale para potências europeias que acompanham de perto o processo de transição.

A postura de cobrança se estende a autoridades venezuelanas, que  precisam responder a denúncias sobre impedimento e dificuldades para a entrada de voluntários no país ou de acesso aos locais mais afetados pelos tremores. Acima de qualquer tensão diplomática ou cálculo político, há pessoas sob os escombros e vidas a serem reconstruídas. São mais de 2 mil mortos e cerca de 11 mil feridos. A Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) fez apelo emergencial para obter US$ 14,85 milhões a serem usados no apoio aos afetados. Eis outra forma de fazer parte da rede de solidariedade.

 

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Por Opinião
postado em 03/07/2026 05:00
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