
Maurício Antônio Lopes — Pesquisador da Embrapa Agroenergia
Todos sabemos, mesmo que de forma intuitiva, o que é uma refinaria. Há mais de um século, esse tipo de instalação transforma petróleo bruto em combustíveis, plásticos, lubrificantes, solventes, fibras, resinas, fertilizantes e muitos outros produtos da vida moderna. Boa parte da indústria do século 20 foi construída em torno dessa lógica: extrair uma matéria-prima fóssil, separar suas frações e abastecer diferentes cadeias produtivas.
O problema é que esse modelo, embora eficiente para gerar riqueza, infraestrutura e conforto, passou a ser cada vez mais questionado. Ele depende de carbono fóssil, acumulado na natureza ao longo de milhões de anos, e está associado a emissões de gases de efeito estufa, poluição, resíduos difíceis de manejar e disputas geopolíticas. A refinaria de petróleo, antes símbolo de progresso, tornou-se também símbolo de um modelo que precisa ser revisto.
Mas o mundo continuará precisando de energia, combustíveis, materiais, fertilizantes, embalagens, fibras, químicos e outros insumos industriais. Em uma economia que precisa emitir menos carbono, desperdiçar menos recursos e cuidar melhor do ambiente, esses produtos terão que vir de novas bases produtivas. É nesse contexto que a biorrefinaria ganha importância.
A lógica é parecida com a de uma refinaria tradicional. A diferença é que, em vez de petróleo, a biorrefinaria utiliza biomassa, isto é, matéria orgânica renovável de origem vegetal, animal ou de resíduos, como cana, milho, soja, madeira, restos agrícolas, dejetos animais e até resíduos urbanos orgânicos. A partir dessa base renovável, é possível produzir energia, biocombustíveis, bioinsumos, químicos, biomateriais, fertilizantes e outros produtos.
Enquanto o petróleo é fóssil, concentrado e finito, a biomassa é renovável, diversa e distribuída pelo território. Está ligada à agricultura, às florestas, à agroindústria e aos ciclos da natureza. Por isso, a biorrefinaria não é apenas uma fábrica diferente. Ela representa uma nova forma de pensar a indústria: produzir mais valor, usando melhor cada parte da matéria-prima e transformando resíduos em novos insumos.
O mundo precisa dessa mudança com urgência. Mesmo com o avanço das energias renováveis, dos veículos elétricos e de outras tecnologias limpas, as emissões globais seguem muito elevadas. Isso mostra que a transição energética é indispensável, mas não basta. Será preciso também mudar a base material da economia, substituindo, sempre que possível, carbono fóssil por carbono renovável, reciclado ou capturado.
As biorrefinarias entram exatamente nesse espaço. Elas podem ajudar a descarbonizar a economia sem paralisar a produção. O objetivo não é simplesmente trocar um combustível por outro, mas redesenhar cadeias produtivas inteiras. Uma usina de cana, por exemplo, pode deixar de ser vista só como produtora de açúcar, etanol e eletricidade. Ela pode se tornar plataforma de etanol de segunda geração, biogás, biometano, combustível sustentável de aviação, biofertilizantes e químicos renováveis.
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O mesmo raciocínio vale para plantas de etanol de milho, indústrias de celulose, frigoríficos, cooperativas, cadeias florestais e polos de resíduos urbanos e agroindustriais. O salto está em integrá-los, diversificar seus produtos e conectá-los a mercados mais sofisticados. Em vez de jogar fora o presente para construir o futuro, as biorrefinarias permitem transformar estruturas existentes em pontes para uma nova economia industrial.
Essa é uma oportunidade muito relevante para o Brasil. Temos uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, agricultura tropical de alta produtividade, diversidade de biomassas, experiência em biocombustíveis, indústria florestal competitiva e resíduos ainda pouco aproveitados. Poucos países combinam, ao mesmo tempo, base biológica pujante, escala produtiva, energia limpa e capacidade científica como o Brasil.
Mas nada disso acontecerá automaticamente. Biorrefinarias exigem ciência avançada, engenharia, logística, financiamento, regulação, certificação e mercado. Exigem também coordenação entre políticas de agricultura, indústria, energia, ciência e tecnologia, meio ambiente e comércio exterior. Não é uma agenda simples ou setorial. Trata-se de uma estratégia de desenvolvimento, que precisa integrar campo, indústria, ciência, energia e mercado.
O risco é tratarmos a bioeconomia apenas como uma expressão simpática, sem perceber sua verdadeira dimensão industrial. Em um século marcado pela urgência climática, pela busca de segurança econômica e pela necessidade de produzir mais com menos desperdício, as biorrefinarias oferecem ao Brasil um caminho concreto para transformar vantagem natural em liderança industrial. O século 20 foi moldado pelo refino do petróleo. O século 21 poderá ser moldado pelo refino da biomassa — e o Brasil tem tudo para ocupar posição de destaque nessa nova fronteira.

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