ARTIGO

Tecnoferência: o impacto silencioso dos smartphones no desenvolvimento infantil

Esse termo científico descreve um fenômeno cada vez mais comum nas famílias brasileiras: as interrupções nas interações entre pais e filhos causadas por smartphones, tablets e outros dispositivos digitais

PRI-2203-OPINI -  (crédito: maurenilson)
PRI-2203-OPINI - (crédito: maurenilson)

Andréa Jácomo pediatra, professora de medicina do Ceub e coordenadora do Departamento de Pediatria Ambulatorial da Sociedade de Pediatria do DF

Tecnoferência, já ouviu falar? Das palavras novas que, aos poucos, vão entrando no nosso dicionário, esse termo científico descreve um fenômeno cada vez mais comum nas famílias brasileiras: as interrupções nas interações entre pais e filhos causadas por smartphones, tablets e outros dispositivos digitais. Enquanto checamos mensagens durante o jantar, respondemos e-mails ao mesmo tempo em que brincamos com nossos filhos, ou nos distraímos com notificações durante conversas importantes, criando um padrão de desatenção que pode ter consequências significativas para o desenvolvimento das crianças.

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Uma meta-análise publicada em 2025 no Jama Pediatrics, revista científica de grande impacto, reuniu 21 estudos com quase 15 mil participantes de 10 países e revelou dados preocupantes: o uso de tecnologia pelos pais na presença dos filhos está associado a pior desenvolvimento cognitivo, vínculos afetivos mais frágeis, além de mais problemas de comportamento internalizantes (como ansiedade) e externalizantes (como agressividade e hiperatividade). A pesquisa também mostrou que crianças expostas à tecnoferência passam significativamente mais tempo em frente às telas.

O mecanismo por trás desses impactos é relativamente simples, mas profundo. Quando os pais estão frequentemente distraídos por dispositivos, as tentativas das crianças de interagir ou buscar atenção são recebidas com respostas atrasadas, superficiais ou ausentes. Essa inconsistência na resposta social priva as crianças de interações de alta qualidade, sustentadas e recíprocas, essenciais para o desenvolvimento de habilidades cognitivas fundamentais, incluindo funções executivas como memória, atenção e controle inibitório. Mais de 70% dos pais usam tecnologia enquanto brincam ou durante as refeições com seus filhos, e 89% relatam se envolver em tecnoferência pelo menos uma vez por dia.

Esse fenômeno guarda semelhanças com outro termo que também entrou recentemente no nosso vocabulário: "brainrot", apodrecimento cerebral, usado para descrever os efeitos do consumo excessivo de conteúdo digital de baixa qualidade. Estudos mostram que tempo excessivo de tela está associado a dificuldades cognitivas significativas. Uma pesquisa com mais de 17 mil adolescentes americanos revelou que aqueles com comportamento excessivo de tempo de tela tiveram 28% mais chances de relatar dificuldades sérias de concentração, memória e tomada de decisões. As evidências neurocientíficas reforçam essas preocupações. Revisões sistemáticas demonstram que exposição precoce a telas está correlacionada com atrasos no desenvolvimento da linguagem, problemas de aprendizagem em matemática, leitura e escrita, deficits motores finos e grossos, atrasos socioemocionais, comportamento agressivo e aumento do risco de autolesões.

Mas, muita calma nessa hora. Há esperança. As famílias podem adotar estratégias práticas e baseadas em evidências para reduzir a tecnoferência e proteger o desenvolvimento infantil. Tanto a Sociedade Brasileira de Pediatria quanto a Academia Americana de Pediatria recomendam criar "zonas livres de telas" em casa e estabelecer "horários livres de telas" durante as refeições, uma hora antes de dormir e durante a lição de casa. A indicação é desenvolver um Plano Familiar de Mídia, que estabeleça limites claros para todos os membros da família, não apenas as crianças. As recomendações atuais sugerem evitar telas antes dos 24 meses, limitar a uma hora diária de conteúdo de alta qualidade para crianças de 2 a 5 anos e criar limites individualizados para crianças maiores. Quando o uso de telas for inevitável, a ideia é priorizar o conteúdo educativo de qualidade e procurar assistir junto, interagindo sobre o conteúdo exibido. Outra medida fundamental é a mudança de postura dos pais: reduzir o próprio uso de dispositivos na presença dos filhos não apenas diminui o impacto negativo, mas também ensina hábitos saudáveis. 

Tecnoferência não é apenas mais uma das tantas palavras novas que vamos incorporando com os avanços dos estudos sobre o impacto das telas, mas um fator modificável que afeta o desenvolvimento cerebral, emocional e social das crianças. Ao reconhecer esse impacto e implementar mudanças conscientes em nossos hábitos, podemos proteger os momentos de conexão que são fundamentais para o crescimento saudável de nossos filhos.

 

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Por Opinião
postado em 21/07/2026 05:01
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