
Paulo Camargo — conselheiro, mentor de CEOs, autor de Seja o líder que você gostaria de ter como chefe
Acompanhei de perto a aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala 6x1 e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais. Agora, a proposta está no Senado. E é justamente nesse intervalo que quem opera na ponta precisa ser ouvido.
Meu primeiro emprego formal foi numa assistência técnica da minha família, como balconista. Carteira assinada, segunda a sábado. Era 6x1. Quando eu tinha prova, trabalhava menos durante a semana e compensava no fim de semana. Aquilo nunca me pareceu privilégio. Parecia bom senso.
Voltei da Ásia há poucos dias. Num hotel em Tóquio, conversei com um rapaz jovem, uns 25 anos, que me atendeu à noite e estava lá de novo na manhã seguinte. Perguntei quantas horas ia trabalhar naquela semana. Umas setenta, respondeu. Mas variava. Tinha semanas em que escolhia fazer menos, dependendo dos próprios planos. Perguntei se era obrigatório. Ele riu: "Não, eu que decidi. Essa semana quero dar um gás. Quando o hotel permite horas extras, eu venho".
Continuamos conversando. Os mais velhos, incluindo o pai dele, preferiam trabalhar menos horas. A namorada, que trabalhava no mesmo hotel, fazia 30 horas por semana porque estava focada em estudar para entrar na faculdade. No mesmo hotel, encontrei três pessoas vivendo momentos diferentes da vida.
Não recomendaria 70 horas para ninguém como rotina. Mas ninguém era obrigado. Cada um tinha liberdade de escolher o próprio arranjo.
Passei mais de 30 anos liderando operações que funcionam 365 dias por ano, muitas delas 24 horas por dia. Restaurantes, varejo, serviços. Conheço o que custa para o trabalhador que não tem sábado. E sei também o que pesa para o negócio que precisa manter a porta aberta.
A discussão pública tem sido dominada por dois polos: trabalhadores que relatam exaustão real e legítima, e projeções econômicas alarmistas. Faltou até aqui a voz de quem opera na ponta, de quem vive da demanda irregular de clientes durante a semana. Esse silêncio tem peso.
Serviços e comércio juntos respondem por mais de 46 milhões de vínculos empregatícios formais no país. São os dois maiores setores da economia brasileira e os mais diretamente afetados por essa mudança. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima que o impacto pode chegar a R$ 122 bilhões por ano, com aumento de até 21% na folha salarial. São números que merecem ser discutidos com seriedade, não descartados como alarmismo nem aceitos sem questionamento. Mas, para quem opera uma pequena empresa com margem apertada, o risco é real. Para muitos pequenos negócios, essa conta simplesmente não fecha.
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Mais do que o custo, o que está em jogo é a flexibilidade. A Associação Nacional de Restaurantes coloca bem: o setor não se opõe à redução da jornada em si. Precisa de flexibilidade na distribuição das 40 horas semanais. Quem já montou turno em operação contínua sabe que um modelo rígido, que ignora a lógica do serviço ininterrupto, não protege o trabalhador. Coloca em risco o trabalhador e o negócio que o emprega.
A legislação já oferece parte desse caminho. Bancos de horas por convenção coletiva, compensação de horários por acordo coletivo, a escala 12x36 funcionando com sucesso em operações 24 horas. A própria PEC preservou a negociação coletiva para escalas diferenciadas em setores essenciais.
Não se trata de preservar ou abolir a escala 6x1, mas de como distribuir as horas trabalhadas de forma que o limite semanal seja respeitado sem inviabilizar modelos de negócio que dependem de operação contínua. Quem conhece essa operação por dentro sabe que essa distinção separa uma política que funciona de uma que gera desemprego.
Essa discussão poderia ter acontecido com mais calma. Está acontecendo agora, com velocidade, em pleno ano eleitoral. Fica a pergunta: por quê? Pautas que afetam a vida de milhões de pessoas merecem ser discutidas sem pressa, ouvindo todos os lados.
O Senado tem diante de si a oportunidade de transformar uma PEC aprovada com velocidade em uma política pública duradoura. Para isso, precisa ouvir quem conhece os dois lados do balcão. Não como obstáculo aos direitos dos trabalhadores, mas como agentes que entendem o que está em jogo. A pergunta não é quantos dias se trabalha. É com que flexibilidade, com quanta autonomia e com que previsibilidade.
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