
Por Felipe Buchbinder — professor da FGV, mestre em inteligência artificial e ciência de dados pela Duke University e pesquisador da Rede de Inteligência Artificial e Tecnologias Quânticas;
Gladstone Arantes Jr — professor da FGV-EESP, doutor em algoritmos distribuídos pela Coppe-UFRJ, analista de tecnologias emergentes
Rockefeller ficaria chocado de ver a lista de maiores empresas hoje. No topo, não estão petrolíferas, siderúrgicas ou gigantescos complexos industriais, cinzentos e pesados. Estão as big techs, donas não de máquinas que produzem bens, mas das plataformas onde quem quer fazer negócios precisa estar presente — os marketplaces, a inteligência artificial, as redes sociais onde semeamos nossos dados para eles colherem informações, arrendando acesso em camadas free, premium e pro.
Rockefeller ficaria chocado. Carlos Magno, não. Conhece bem esse modelo: rico é quem tem a terra e cobra pelo uso de seus campos, moinhos e pontes. Sempre foi assim! Não no capitalismo: no feudalismo, e hoje, mais uma vez. Rico é quem tem as plataformas, as redes, os aplicativos em que os outros precisam estar presentes para colher frutos de seus trabalhos.
É por isso que alguns pensadores, como Yanis Varoufakis, defendem a tese de que já não vivemos mais em um mundo capitalista (onde o lucro advém do controle dos meios de produção), mas, sim, em um novo modelo econômico: o tecnofeudalismo, no qual o controle da tecnologia resgatou elementos da economia feudal.
O tecnofeudalismo é bem diferente do feudalismo original em pelo menos dois aspectos. Primeiro, na abrangência. Enquanto um senhor feudal controlava os vassalos de uma região específica, o tecnofeudalismo é global: quando você posta uma foto no Instagram, seus dados são processados simultaneamente em múltiplos continentes, e a Meta monitora bilhões de usuários em tempo real.
Segundo, na forma de dominação. No feudalismo clássico, o servo era preso à terra. No tecnofeudalismo, o algoritmo o mantém rolando a tela por horas enquanto acredita estar fazendo escolhas livres. Se não estiver no LinkedIn, boa sorte para arrumar emprego! O poder dos chamados digital feudal lords vai muito além dos equivalentes da Idade Média e, a julgar pelas diversas ideologias em circulação no Vale do Silício, não será surpresa se o Ocidente caminhar para um tecnoabsolutismo, caracterização que pode ser facilmente atribuída à China.
O que fazer diante desse cenário? É preciso construir novos caminhos usando essas mesmas tecnologias. Duas são particularmente promissoras: o blockchain e a inteligência artificial (IA).
Blockchain é uma tecnologia de registro distribuído e descentralizado. Registra eventos de forma permanente e imutável em uma rede. E é justamente por isso — por registrar de forma imutável em uma rede que não pertence a ninguém — que processos executados na blockchain evocam trustless trust: são confiáveis sem que se precise confiar em ninguém em particular. Bilhões de dólares fluem pela rede do bitcoin sem que ninguém seja dono dela, e todos acreditam que as transações serão liquidadas apesar disso. Apesar disso, não: por causa disso — porque ninguém é dono, os registros são imutáveis e todas as transações são visíveis e auditáveis por todos.
A confiança no sistema democrático depende diretamente da confiança que se tem nas pessoas e instituições que compõem o tabuleiro político e governamental. Quando essa confiança é questionada, essas pessoas e instituições se tornam impotentes para superar a crise política que as atinge. Nesse contexto, uma saída é reconstruir o sistema democrático segundo princípios que permitam a confiança no sistema sem que seja preciso confiar em ninguém em particular. Em outras palavras, reconstruir a democracia segundo princípios de trustless trust.
As IAs também terão papel relevante nesse novo desenho institucional. Podem ser construídas com explicabilidade nativa e especializadas em funções específicas de governo — não apenas tarefas burocráticas, mas também julgamento, negociação e intermediação de conflitos. Os dados de treinamento dessas IAs podem ser submetidos à aprovação democrática antes mesmo de sua utilização efetiva, permitindo um escrutínio prévio de seus valores, critérios e forma de pensar. Tal escrutínio dificilmente encontra paralelo no discurso de um candidato político, sempre sujeito a promessas ambíguas, genéricas e mutáveis uma vez ganha a eleição.
Também é possível construir IAs que reflitam nossos interesses e opiniões individuais. Essas IAs podem representar-nos no debate público, fazendo nossos pontos de vista serem ouvidos mesmo em searas em que não estejamos fisicamente presentes. Podem também nos representar em negociações, atuando com rastro auditável, garantido por soluções de blockchain.
Se esse mundo parece distante, talvez esteja mesmo. O feudalismo dura mil anos. Os Estados de Direito, como os conhecemos hoje, foram uma longa construção histórica, e suas perpetuidades nunca estiveram garantidas.
A História caminha por uma estrada sinuosa, sempre envolta em uma névoa espessa. Em meio à chuva fria e fina, a estrada que nos leva ao tecnoabsolutismo deixa vislumbrar um caminho alternativo: o criptoiluminismo, onde as democracias se pautam pelos valores de liberdade, igualdade, fraternidade e trustless trust.

Opinião
Opinião
Opinião