ARTIGO

O custo invisível da inadimplência nos direitos autorais

A sustentabilidade do ecossistema movimentado pela indústria musical está ameaçada devido ao aumento da inadimplência no pagamento dos direitos autorais pela utilização pública de músicas

Isabel Amorimsuperintendente executiva do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad)

A música movimenta a economia brasileira de diversas formas. Ela é a grande atração das nossas mais importantes manifestações culturais, como o carnaval e o São João, e dos megashows de renomados artistas nacionais e internacionais. A música contribui para o movimento de bares, hotéis e restaurantes e está presente nas estratégias de venda das grandes marcas, por meio da publicidade. A indústria musical fomenta o entretenimento e impulsiona o turismo, aquece as economias locais e garante renda para milhares de trabalhadores, de dentro e de fora desse ambiente de negócio. Mas a sustentabilidade desse ecossistema está ameaçada devido ao aumento da inadimplência no pagamento dos direitos autorais de execução pública musical — o que compromete a justa remuneração de compositores, intérpretes, músicos e profissionais da indústria criativa.

Dados do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) indicam que, em 2025, a inadimplência atingiu cerca de 23% dos valores referentes à utilização pública de músicas. Quando considerada toda a base cadastral do Ecad — incluindo débitos históricos, cobranças ajuizadas e cadastros inativos —, esse percentual pode atingir 29%. Esses números reforçam a importância de um trabalho permanente de conscientização, negociação e regularização conduzido pelo Ecad em todo o país. Ao contrário do que muitos imaginam, a atuação da instituição não começa na esfera judicial. O diálogo é sempre o primeiro caminho. A judicialização só ocorre quando todas as tentativas de negociação se esgotam.

E os resultados desse trabalho têm sido importantes. O Ecad conseguiu reverter cenários históricos de inadimplência em tradicionais festas juninas do Nordeste, incluindo eventos no Recife e em Caruaru (PE), que estavam há cerca de 20 anos sem pagar os direitos autorais pela utilização pública de músicas. Mas, mesmo assim, o problema ainda persiste em muitas localidades e em todas as regiões.

Nesse contexto, a temporada das festas juninas torna esse debate urgente e relevante, porque, no Nordeste, os festejos aparecem entre os segmentos com maior participação na inadimplência regional, representando 11,5% do total.

A inadimplência afeta de maneira desigual diferentes regiões e segmentos econômicos. O Sudeste concentra a maior participação no total da inadimplência nacional, com 41%, seguido pelo Nordeste, com 26,9%. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná registram os maiores índices. São Paulo responde, sozinho, por 22,6% de toda a inadimplência do país.

 Diante desse cenário, o Ecad intensificou a adoção de medidas de combate ao uso irregular de músicas em eventos e estabelecimentos comerciais. Só este ano, a Justiça determinou, por exemplo, a regularização do pagamento de direitos autorais para shows em Caraguatatuba (SP), concedeu decisão favorável ao Ecad em ação contra o Festival Viva Garanhuns 2026 (PE) e reforçou a obrigatoriedade do licenciamento prévio para eventos com execução pública musical, em Ouro Preto (MG). Em Fortaleza, a Justiça decretou a interrupção da execução musical em locais em atraso com o pagamento de direitos autorais até a regularização dos débitos. No Amazonas, uma das maiores empresas de eventos do estado foi condenada a pagar parte de uma dívida de valor expressivo e proibida de realizar novos shows sem autorização dos compositores.

Essas decisões reforçam que o pagamento dos direitos autorais não é opcional. Trata-se de uma obrigação prevista na Lei nº 9.610/98, um mecanismo essencial para garantir que compositores, intérpretes e demais titulares sejam remunerados pela utilização de suas obras.

Marcas patrocinadoras também podem exercer um papel decisivo nesse cenário. Ao priorizar o apoio a eventos adimplentes e comprometidos com o pagamento dos direitos autorais, contribuem para o fortalecimento da cadeia da música e para o desenvolvimento da cultura brasileira. Um evento sustentável também é aquele que respeita artistas e compositores.

Defender os direitos autorais é defender a produção cultural no país. Afinal, por trás de cada música executada em um palco, arraial, bar, restaurante ou evento público, existe o profissional que vive da criação artística. Esse trabalhador precisa, como qualquer outro, que sua obra, resultado do seu trabalho, seja respeitada e remunerada de forma justa, como determina a lei.

 

 

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