OPINIÃO

O pós-Copa e a pré-eleição

O maior risco de dividir o tempo em fases bem definidas não é o planejamento em si (que, de certa forma, até me acalenta), mas a rigidez com que se tenta defendê-las

A Copa do Mundo de 2026 chegou ao fim. A edição mais longa do torneio terminou após 39 dias. A emoção brasileira foi findada mais cedo, é verdade, mas a torcida tupiniquim se manteve atenta aos jogos, é justo dizer. A sensação agora é de que terminou uma fase e já se parte para outra: as eleições. Só vale o cuidado de que essa divisão temporal tão cartesiana apresenta riscos.

Esse pós-Copa já me deu ansiedade pelas eleições de 2026. Será que se trata de uma "viagem" filosófica dessa minha mente? Fui atrás de respostas e parece que não sou o único com tal reflexão. 

Ocorre que existem diferentes vertentes e estudos na psicologia que abordam os riscos de tentar "fatiar" a vida ou o tempo em fases excessivamente rígidas ou "caixas" bem definidas. Esse fenômeno é analisado tanto na psicologia organizacional e do tempo quanto na psicologia do desenvolvimento e da personalidade.

Quais são os riscos psicológicos de fatiar o tempo? Alguns profissionais da psicologia do desenvolvimento, como Erik Erikson, alertam para o perigo de enxergar o ciclo de vida como uma escada com degraus isolados. A ideia é mais ou menos assim: quando você foca muito em um determinado momento, pode acabar ignorando, ou pelo menos não aproveitando, a natureza contínua da identidade humana.

Essa ansiedade do pós-Copa e pré-eleições é exatamente o contrário do que é necessário para manter uma saúde mental sossegada. O desenvolvimento saudável exige que as experiências se acumulem de forma integrada, e não que a gente tente "anular" momentos por outros. O imediatismo das redes sociais e a velocidade das notícias amplificam esse sentimento, criando uma necessidade artificial de estarmos sempre conectados ao próximo grande evento.

Pensa comigo. Tudo bem, a Copa acabou, vamos focar nas eleições (e com todas as tribulações desse período). Logo ela passa também, hora de focar no Natal. Opa, já estamos no carnaval. Até lá, Trump já aprontou alguma coisa, hora de focar na política internacional. Imagina essas fases até a próxima Copa de 2030. Não sei, parece-me como ficar caminhando naquelas rodinhas de hamster. Essa busca incessante pelo próximo marco cronológico impede o indivíduo de vivenciar o presente, gerando um estado crônico de estresse.

O maior risco de dividir o tempo em fases bem definidas não é o planejamento em si (que, de certa forma, até me acalenta), mas a rigidez com que se tenta defendê-las. O bem-estar está associado à capacidade de permitir que as fronteiras da vida sejam permeáveis e adaptáveis.

Entre hoje e o pós-Copa até outubro ainda tem tempo de muita coisa. Não vale ficar só falando de eleições, deixe a consciência trazer os assuntos que importam. Há todo um mundo no pós-Copa. Apreciar o intervalo entre os grandes acontecimentos é fundamental para o equilíbrio emocional e para uma percepção do tempo mais saudável.

 


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