Margareth dos Anjos Santos — escritora, comunicóloga, doutora em artes, integra o Núcleo de Escritoras Pretas Maria Firmina dos Reis do Instituto de Letras da UnB
Escritoras negras de Brasília e um sonho: revolucionar a literatura brasileira. Surge então, em 2023, o Núcleo de Escritoras Pretas Maria Firmina dos Reis da Universidade de Brasília, NEPFIR-UnB, idealizado pelas professoras e escritoras Adelaide Paula e Norma Hamilton. Um ano depois, é lançada a primeira coletânea bilíngue de autoras pretas do Brasil: Desarquivado — escritos de mulheres pretas no Brasil. O livro veicula textos em português e inglês.
As reuniões virtuais do núcleo, inicialmente motivadas pelo desejo de fortalecer a escrita de mulheres negras, logo se transformaram em territórios de partilha e criação. Eram encontros que atravessavam a noite e, não raramente, alcançavam a madrugada. Entre leituras, debates, memórias e risos, algumas vezes acompanhados por um bom vinho, tecia-se algo maior do que um novo projeto. Construía-se ali um verdadeiro quilombo literário, sustentado principalmente pela palavra.
Em uma dessas reuniões remotas, surgiu a proposta de uma nova publicação, desta vez tendo como eixo central a tecnologia. Contudo, não nos interessava reproduzir as concepções hegemônicas e coloniais que historicamente definiram o que pode ou não ser reconhecido como tecnologia. Queríamos deslocar o olhar, falar das tecnologias ancestrais. Aquelas forjadas no corpo, na oralidade, na espiritualidade, no cuidado, na arte e nas estratégias de sobrevivência. Tecnologias gestadas nas encruzilhadas da diáspora, nos terreiros, nos quintais que desaguavam nas universidades, nas escolas, nos laboratórios de pesquisa, nos reality shows, que, mesmo diante da violência colonial, seguiram criando mundos possíveis.
A proposta materializou-se por meio de um edital público para recebimento de textos. Cerca de 30 autoras encaminharam seus manuscritos, revelando potência criativa e intelectual. O resultado da seleção foi anunciado pelas integrantes do Conselho Editorial — Elisa Mattos, Hislla Ramalho, Margareth dos Anjos Santos e Norma Hamilton —, que escolheu 13 textos, entre crônicas, poemas e produções acadêmicas. As tecnologias e suas encruzilhadas nasce, portanto, para afirmar que há ciência, inovação e futuro nos nossos saberes. Se Desarquivado havia atravessado fronteiras, sonhávamos agora com uma obra verdadeiramente multilíngue. Surge, então, o que passamos a chamar de "vórtice babélico".
Com uma ampla rede de colaboração, o livro chega ao público em sete idiomas: português, inglês, francês, espanhol, alemão, italiano e iorubá, língua de matriz africana. Produzido por mãos pretas que residem em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Sergipe, Portugal, Itália e no Caribe, a obra reafirma a potência das redes negras transnacionais, unidas no propósito de derrubar muros, cruzar oceanos e abrir caminhos. Movidos pela força de Exu, senhor das encruzilhadas e da comunicação, seguimos firmando pontos e ampliando horizontes. Afinal, como nos profetizou Angela Davis: "Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela".
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Os textos são assinados e/ou traduzidos por Alessandra Corrêa Souza, Alessandra Nunes, Ana Flávia Magalhães, Ana Rossi, Ariani Teodoro, Cristina Guilherme, Dyhorrani Beira, Elisa Mattos, Flávia de Jesus Santos, Flávia Soares de Siqueira, Hallana da Costa, Hislla S. M. Ramalho, Janaína Nascimento, Jéssica Francisca Mota dos Santos, Jéssica Saraiva de Mello, Margareth dos Anjos Santos, Michelle Villaça Lino, Neide Rafael, Norma Diana Hamilton, Rodrigo Peniche, Suellen de Carvalho e Taiza Ramos de Souza Costa Ferreira.
As tecnologias e suas encruzilhadas, organizado por Hislla S. M. Ramalho e Margareth dos Anjos Santos, terá o primeiro grande evento de lançamento em 30 de julho, durante o XIV Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as (Copene), na Universidade de Brasília. No dia 31 de julho, às 16h, a obra será celebrada novamente no Espaço Mário Gusmão, na Fundação Cultural Palmares, em Brasília.
