ARTIGO

Apostas, tropeços e dois canos de esperança

É preciso que o Estado intervenha com força normativa, que reconheça o problema das bets não após consolidados os danos, mas quando eles aparecem pela primeira vez no horizonte

Por: Paulo Rená — flamenguista, doutor em direito, estado e constituição pela UnB;

Chico Macedo — cruzeirense, mestre em comunicação pela UnB

Acreditar no Brasil na Copa do Mundo da Fifa 2026 de futebol masculino foi uma aposta legítima. Somos uma nação de torcida crônica: a cada quatro anos, recebemos uma nova moeda para jogar no ar, acreditando concretamente na possibilidade de ganharmos a taça. Desde 2002, antes do sexto título, fomos "hexa" ao contrário, perdendo seis Copas seguidas. Ainda assim, mesmo com as confusões do ciclo e a classificação truncada nas eliminatórias, a aposta era honesta. Agora é hora de "2030 é logo ali".

A Noruega nos eliminou nas oitavas de final e acabou com a ilusão de que o Brasil e Neymar Jr. poderiam ressuscitar um ao outro. Mas é sintomático que o desempenho de Neymar nestes anos tenha sido questionado por suas ausências.

Fato é que a Seleção nunca ficou de fora de uma Copa e sempre temos uma nova chance. Não é assim com quem aposta em bets. Milhões de pessoas no Brasil sofrem derrotas diárias, sem pausa para hidratação. O mercado de apostas esportivas no Brasil movimenta mais de R$ 100 bilhões.

O futebol sempre foi arena social, expondo nossas contradições: heróis, tragédias e possibilidades. O time em campo é nosso reflexo, mas, nos últimos anos, esse espelho virou presente de navegador europeu. Nele vemos um mundo doente, com a eficiência desumana da indústria das apostas.

As bets diferem das antigas casas de apostas pois não pedem ritual: são algoritmos no bolso, notificações de celular e intimidade permanente. Ninguém precisa buscar as informações sobre odds que chegam sozinhas, parasitando redes sociais, intervalos comerciais e até as transmissões de futebol, atreladas à imagem do cara legal ou do ex-atleta bem-sucedido. A legitimação é cruel quando um campeão do mundo diz "Isso é seguro para quem quer vencer". E quem anuncia bet não ganha com sua vitória, mas com a derrota. O vício e a degradação econômica e mental crescem em silêncio, à noite, no sofá, no quarto, no ônibus depois do dia de trabalho.

A convocação para 2026 não aconteceu na sede da CBF nem em algum auditório funcional, mas num museu. Mais de mil pessoas viram números musicais, jornalista de mestre de cerimônia e intervalo comercial. Os 26 nomes chegaram numa pastinha com o técnico de carro especial. Tudo era show, mercadoria, encenação. Quando, enfim, saiu o nome de Neymar Jr., a síntese do ciclo (vicioso) estava feita:  marca, produto, aposta. O puro espírito do tempo: a Seleção como marketing e a monetização da nossa esperança.

O Brasil vive uma crise regulatória. A legislação das bets segue tímida diante dos danos, cada dia mais confirmados por números e histórias de gente que perdeu tudo. A dependência cresce exponencialmente, em especial entre pessoas jovens e mais vulneráveis. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu como transtorno mental. Mas, como nossa zaga à caça do Haaland, a regulação segue atrasada frente à perda de patrimônio familiar, suicídios e abandono de responsabilidades. O Estado brasileiro ainda não tipificou esse crime em andamento nem coibiu os excessos do mercado de apostas.

Os ingleses codificaram as regras do futebol que perduram até hoje. Ao mesmo tempo, carregam consigo, há séculos, uma relação próxima e preocupante com apostas, enraizada na cultura, vide o ótimo filme Jogos, trapaças e dois canos fumegantes (1998), do diretor Guy Ritchie. Na convivência histórica com o gambling, a sociedade inglesa não colapsou (ao menos não completamente). Há regulação, há conscientização, há estruturas de proteção.

Talvez, possamos conviver com apostas sem que elas destruam tudo. Mas é preciso que o Estado intervenha com força normativa, que reconheça o problema não após consolidados os danos, mas quando eles aparecem pela primeira vez no horizonte.

O Brasil ainda tem a oportunidade de fazer o que a Inglaterra fez: regulação séria, proteção de menores, limites publicitários, reconhecimento do problema social que merece ser tratado como tal. A vitória normativa sobre as bets seria uma vitória sobre aquela parte de nós que aceita tudo que o mercado nos oferece e o que o direito ainda não proíbe. Não é utopia, mas algo possível, uma vitória que o Estado ainda pode conquistar. Perder para as bets não deve ser, não é e, acreditamos, não será fado nacional. 

Paulo Freire dizia que a esperança é a espera que exige luta, ação e transformação. Não se trata de otimismo ingênuo. Esperançar é verbo, não estado. E o Brasil pode esperar agora.

A Copa de 2026 foi uma aposta legítima que perdemos. Há outra aposta em jogo agora, e essa, sim, com chance de ser ganha. É a aposta de que o Brasil pode escolher libertar-se da degradação que as bets impõem. Podemos conquistar uma vitória jurídica que proteja filhos e pais, que mantenha vivas as pessoas, e que preserve a esperança lúdica cotidiana que sempre depositamos no futebol.

Essa vitória não precisa esperar quatro anos, mas precisamos lutar por ela. E ano que vem já tem Copa do Mundo Feminina. Vamos esperançar imediatamente!

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