ARTIGO

Do Oriente Médio ao posto de gasolina: o etanol de volta ao centro da economia

Em momentos de estresse global, o etanol deixa de ser apenas mais uma opção de combustível e passa a desempenhar papel estratégico na redução da vulnerabilidade externa do país

. -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
. - (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

Pedro Henrique Pontes economista e professor do Centro Universitário Internacional (Uninter)

 

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A escalada das tensões no Oriente Médio e a possibilidade de interrupções no tráfego marítimo pelos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb voltaram a acender um alerta nos mercados internacionais. Por Ormuz passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. Já por Bab el-Mandeb, corredor estratégico entre o Mar Vermelho e o Oceano Índico, transita um volume próximo de 7% da produção mundial de petróleo. Qualquer ameaça a essas rotas repercute imediatamente nos preços da energia e nas expectativas dos agentes econômicos. Assim, as tensões no Oriente Médio, a incerteza em torno desses estreitos e a volatilidade do mercado internacional de petróleo mostram que o problema não é apenas a oferta física da commodity, mas também o risco e a instabilidade produzidos pelo contexto geopolítico.

O petróleo continua disponível, mas o mercado reage antes de uma eventual escassez. A simples percepção de risco é capaz de elevar custos de transporte, seguros e expectativas inflacionárias. É justamente por isso que conflitos internacionais continuam produzindo efeitos sobre a inflação e os custos de energia mesmo a milhares de quilômetros dos locais onde ocorrem.

Esse cenário recolocou a segurança energética no centro das discussões econômicas. Durante décadas, o Brasil construiu uma trajetória singular nesse campo, ora sob a égide do projeto Brasil Potência, ora sob uma política de stop and go. Desenvolveu uma indústria de etanol, consolidou a tecnologia flex fuel, ampliou o uso do biodiesel e construiu uma das matrizes energéticas mais diversificadas e limpas do mundo. Ao mesmo tempo, tornou-se um importante produtor de petróleo. Ainda assim, permanece dependente da importação de alguns derivados, especialmente o diesel. 

Essa dependência é particularmente relevante porque o diesel continua sendo o principal combustível do transporte de cargas no Brasil. Quando seus custos aumentam, os efeitos tendem a se espalhar por diferentes cadeias produtivas, pressionando custos logísticos e, indiretamente, os preços de bens e serviços. Segundo o Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis 2026, os volumes importados de gasolina e diesel cresceram 27,63% e 19,37%, respectivamente, entre 2024 e 2025, evidenciando que a dependência continua relevante.

É nesse contexto que a mistura de etanol na gasolina ganha relevância. A recente adoção da gasolina E32, com 32% de etanol anidro, reforça a estratégia de ampliar a participação dos biocombustíveis e reduzir a dependência de derivados fósseis. A discussão não deve ser reduzida a preços nem ao prisma ambiental. Em momentos de estresse global, o etanol deixa de ser apenas mais uma opção de combustível e passa a desempenhar papel estratégico na redução da vulnerabilidade externa do país. Foi assim durante o primeiro choque do petróleo. E pode voltar a ser agora.

Isso não significa que o etanol seja uma solução perfeita ou que garanta, por si só, combustível mais barato na bomba. Os preços continuam influenciados pela cotação do petróleo, pelo câmbio, pelas condições climáticas, pela logística e pela dinâmica de mercado. O que muda é a capacidade de o biocombustível amortecer parte dos choques externos.

Por isso, o debate sobre combustíveis não deveria ser reduzido à escolha entre controlar preços ou deixar o mercado agir sozinho em períodos eleitorais. É natural que políticas capazes de influenciar a inflação e o custo de vida ganhem relevância em contextos de disputa política. No entanto, a verdadeira discussão é como construir um ambiente com mais concorrência, previsibilidade e diversificação energética, capaz de reduzir a exposição da economia brasileira às turbulências internacionais. Segurança energética não é apenas uma questão de abastecimento. É também uma questão de estabilidade econômica. Em um cenário de petróleo volátil e tensões geopolíticas, a pergunta mais relevante não é quanto custará o combustível amanhã, mas qual matriz energética tornará o Brasil menos vulnerável depois de amanhã.

 

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Por Opinião
postado em 04/08/2026 05:00
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