
Gunther Rudzit — professor de relações internacionais da ESPM/SP e professor convidado da Universidade da Força Aérea (Unifa)
A Terceira Guerra do Golfo começou em meio à desconstrução da ordem internacional pelos Estados Unidos. A ação militar na Venezuela reafirmou a disposição de Washington de substituir regras e instituições pelo emprego direto da força. Pouco depois, Estados Unidos e Israel atacaram o Irã supondo que a superioridade tecnológica produziria uma guerra rápida. O cálculo mostrou-se equivocado. A superpotência continua capaz de destruir instalações e eliminar lideranças, mas não de transformar supremacia militar em solução política. O poder americano não desapareceu; encontrou seu limite.
Foi esse impasse que tornou possível o Memorando de Entendimento entre Washington e Teerã. Os dois lados precisavam interromper uma guerra que nenhum conseguia encerrar. O documento prorrogou o cessar-fogo por 60 dias e adiou os temas decisivos: o programa nuclear iraniano, as sanções e a segurança de Ormuz. Produziu uma pausa operacional, não uma arquitetura de paz. Quando os combates recomeçaram, as condições políticas continuavam intactas, mas a geografia estratégica da guerra começava a mudar.
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O conflito sempre teve dimensão regional. A frente libanesa, os houthis no Mar Vermelho e as milícias apoiadas por Teerã no Iraque e na Síria impediam que fosse descrito como estritamente bilateral. A novidade não é o surgimento de novos teatros, mas o grau de integração entre eles. Frentes antes parcialmente compartimentadas começam a formar um único sistema estratégico.
O ataque com drones que danificou dois navios-tanque em águas egípcias, próximo ao porto de Damietta, expõe essa transformação. Ninguém reivindicou a ação e não há evidência de ameaça direta ao Canal de Suez. Ainda assim, o episódio levou empresas e seguradoras a reavaliar uma rota que ganhara importância porque Ormuz e Bab el-Mandeb se tornaram perigosos. A guerra passa a pressionar os corredores que ligam o Golfo, o Mar Vermelho e o Mediterrâneo.
Fontes ouvidas pela Reuters afirmam também que combatentes houthis participaram, em coordenação com milícias iraquianas e sob supervisão iraniana, de ataques contra a Arábia Saudita lançados a partir do Iraque. Bagdá investiga as acusações, que devem ser tratadas com cautela. Se confirmadas, elas revelam mais do que outra frente: combatentes, tecnologia e capacidade de ataque estariam circulando entre organizações do Eixo da Resistência. O Iraque deixaria de ser apenas área de influência para tornar-se plataforma operacional contra o Golfo.
A pressão iraniana sobre Bulgária e Chipre amplia esse espaço. Teerã advertiu que países que permitirem o uso de bases por forças americanas poderão enfrentar consequências.
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É nesse contexto que a Arábia Saudita tenta assumir um papel novo. Riad apresentou uma força marítima multinacional para proteger o Mar Vermelho, Bab el-Mandeb e o Golfo de Áden, com apoio de países como Egito, Turquia e Paquistão. Em setembro de 2025, sauditas e paquistaneses assinaram um acordo de defesa mútua que trata uma agressão a um como agressão a ambos.
O movimento não é apenas militar. Estados Unidos e Arábia Saudita concluíram um acordo de cooperação nuclear civil, sujeito à revisão do Congresso, para construir reatores com tecnologia americana. O texto abre espaço para atividades sensíveis, como enriquecimento e reprocessamento, sem todas as salvaguardas mais rígidas defendidas por críticos da proliferação. Trump condicionou seu avanço à adesão saudita aos Acordos de Abraão. Ainda assim, a proposta revela uma convergência estratégica: Washington oferece respaldo tecnológico e político, enquanto Riad procura ampliar sua autonomia e equilibrar o poder iraniano.
A Arábia Saudita já não busca apenas proteção dos Estados Unidos. Procura organizar uma coalizão, proteger suas exportações e impedir que o Irã continue definindo a agenda regional por meio de redes descentralizadas. Dois modelos de poder passam a competir: a projeção iraniana por milícias e parceiros armados e a tentativa saudita, respaldada por Washington, de construir uma liderança estatal, tecnológica e multinacional.
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A Terceira Guerra do Golfo, portanto, não está apenas se espalhando. Ela está adquirindo uma lógica propriamente regional. A integração entre frentes, alianças e corredores marítimos transforma conflitos paralelos em um sistema de guerra. O maior risco é a formação de uma ordem regional definida pela militarização permanente — justamente quando a potência que iniciou a escalada demonstra poder para ampliar a guerra, mas não para encerrá-la.

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