ARTIGO

Super El Niño: a universidade pública como ponte para a adaptação climática

Frente ao colapso ambiental e ao avanço do Super El Niño, a universidade pública prova que é a ponte capaz de unificar órgãos de controle, governos e comunidades em torno de respostas concretas

. -  (crédito: Evandro Leal/Estadão Conteúdo)
. - (crédito: Evandro Leal/Estadão Conteúdo)

Eduardo Vedorprofessor associado da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador do Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb) 

A chegada de fenômenos avassaladores como o Super El Niño evidenciou que a emergência climática deixou de ser um debate hipotético sobre o futuro para se tornar uma imposição do presente. No entanto, para além das temperaturas recordes e tempestades devastadoras, é preciso encarar a verdadeira raiz do problema: a crise do clima é apenas o sintoma mais visível de uma crise ambiental estrutural e muito maior, fruto de um modelo de consumo que ignora completamente os limites e a disponibilidade dos recursos naturais. Se toda a população global adotasse o padrão de consumo de países como os Estados Unidos, seriam necessários quase cinco planetas Terra para sustentar a conta. O clima, agora, cobra o preço dessa superexploração por meio de eventos extremos recorrentes que destroem infraestruturas urbanas, paralisam economias regionais e colocam vidas humanas em risco constante. 

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Essa mudança drástica de patamar reflete-se de maneira direta na evolução das próprias políticas públicas no Brasil. Quando o governo federal publicou o seu primeiro Plano Clima, em 2016, a palavra de ordem e o conceito central eram a mitigação — focar esforços em reduzir a pegada ecológica, cortar emissões de gases de efeito estufa e desacelerar o aquecimento. Uma década depois, ao revisar suas diretrizes e indicadores, o poder público e a comunidade científica brasileira constataram uma realidade dura e inevitável: os cenários globais mais alarmantes projetados no passado se concretizaram. Diante disso, embora mitigar continue sendo indispensável, a palavra-chave da gestão ambiental passou a ser a adaptação. O novo normal climático exige adequar com máxima urgência nossas cidades, a gestão do solo e as comunidades mais vulneráveis aos impactos que já estão batendo à porta, com destaque para a tragédia recorrente das enchentes e dos deslizamentos de terra. 

É exatamente no desafio prático da adaptação que se revela a maior fortaleza da universidade pública — não apenas enquanto centro formador de quadros ou repositório de pesquisas teóricas, mas como um agente ativo e indispensável no território. Em um cenário em que a burocracia estatal, a escassez de recursos e o receio de sanções jurídicas frequentemente paralisam a gestão ambiental dos municípios, a universidade surge com um poder altamente transformador: a sua capacidade de mediação institucional e social. 

Um exemplo emblemático e concreto dessa atuação ocorre no Jardim Guaraituba, em Paranaguá, no litoral paranaense. A comunidade está situada na área periférica e zona de amortecimento de um parque estadual e abriga cerca de 140 famílias envolvidas em um complexo e arrastado processo judicial de regularização fundiária. Por estar com a área judicialmente congelada há anos, o bairro vive em um limbo: a prefeitura não realiza benfeitorias por medo de responsabilização legal, e os moradores sofrem sem assistência básica. A intermediação técnica da universidade pública vem alterando profundamente essa dinâmica. Articulando o diálogo entre o Ministério Público, o Ministério das Cidades, o Instituto Água e Terra (IAT), a prefeitura municipal e as lideranças comunitárias, a academia obteve a licença ambiental necessária para implantar no local uma Solução Baseada na Natureza (SBN): uma trincheira infiltrante projetada para mitigar os frequentes alagamentos. 

Mais do que resolver o escoamento das águas, a intervenção abriu caminho para demandas históricas de infraestrutura. Ao demonstrar tecnicamente que a adequação do leito da rua era essencial para direcionar a água da chuva até a trincheira, a equipe universitária possibilitou ao gestor municipal a segurança jurídica para entrar com o maquinário público no território. O receio institucional foi superado, e a desconfiança inicial dos moradores deu lugar à confiança e ao acolhimento do conhecimento científico. 

Além do impacto social imediato, o projeto gera dados científicos de altíssimo valor. Com a instalação de estações pluviométricas acopladas à trincheira, os pesquisadores monitoram o volume de chuva e a capacidade real de suporte do sistema. Esses dados permitem calibrar a tecnologia e replicá-la em outros bairros vulneráveis com precisão e custo reduzido. Em um país em desenvolvimento, onde a ciência opera frequentemente com orçamentos restritos, a criatividade e a flexibilidade do pesquisador brasileiro convertem-se em soluções adaptativas de enorme impacto social. 

Frente ao colapso ambiental e ao avanço do Super El Niño, a universidade pública prova que é a ponte capaz de unificar órgãos de controle, governos e comunidades em torno de respostas concretas. Aproximar a ciência da gestão pública é a única garantia de que a adaptação climática ocorrerá com justiça social, rigor técnico e eficiência.

 

 

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Por Opinião
postado em 05/08/2026 05:00
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