
Esqueça a imagem do jornalista frio, marcado pelo distanciamento do fato e pela ideia de isenção, que quase o desumaniza. Esse jornalista não existe. Em quase três décadas no exercício do jornalismo, conheci pessoas pelas quais era impossível não sentir empatia. Você deve se lembrar da imagem do pequeno Alan Kurdi, o menino de 2 anos engolido pelo Mar Mediterrâneo e encontrado morto em uma praia da Turquia, em 2 de setembro de 2015. A camiseta vermelha, a bermuda e os tênis davam a impressão de que ele dormia. Falei com Abdullah Kurdi, pai de Alan. Perdeu os dois filhos e a esposa na tragédia. Sua família queria apenas chegar à Europa. Mas o naufrágio afogou todos os seus sonhos. Ao fim da entrevista por telefone, senti vontade de abraçar Abdullah, caso estivéssemos frente a frente.
Pude dar um abraço em Aram Hovsepyan, 29 anos, e em sua mãe Susana, 61, quando visitei Kornidzor, na Armênia, um vilarejo localizado a 2km do enclave de Artsakh, também conhecido como Nagorno-Kharabakh. Em 19 de dezembro de 2023, a família Hovsepyan e outras 100 mil pessoas fugiram às pressas de Artsakh, depois que as forças do Azerbaijão invadiram o território e promoveram uma limpeza étnica. Imagine olhar pela janela, enxergar, ao longe, a terra onde nasceu e saber que jamais voltará, sob pena de ser executado por franco-atiradores.
Susana e Aram me receberam com porções generosas de Zhingtalov hats, um pão folha recheado de ervas e vegetais, típico de Artsakh. Nos olhos de mãe e filho havia dor e saudade. Antes de partir, pedi que permitissem uma fotografia ao lado deles. Sinal de gratidão por ter aprendido tanto sobre resiliência.
Entrevistei sobreviventes do Holocausto nazista e me emocionei com histórias trazidas do inferno. Nas palavras de quatro idosos, ressoava o trauma do pesadelo que foram obrigados a carregar por toda a vida. As experiências nas mãos do médico sádico Josef Mengele, o "anjo da morte"; as separações dos pais, levados para a fila das câmaras de gás; o cheiro nefasto da morte nos crematórios de Auschwitz.
Anos depois, visitei o Yad Vashem, o Memorial do Holocausto, em Jerusalém, e pude ter um pequeno vislumbre de tudo o que os judeus passaram. Ao ver a reportagem publicada — com um belíssimo trabalho de arte e diagramação do Correio, em 2015 —, chorei. Assim como as lágrimas vieram ao ver os uniformes dos prisioneiros dos nazistas e ao escutar os nomes de crianças assassinadas por Hitler. Também ao escutar o relato pavoroso de Motasem Dalloul, jornalista palestino que teve a esposa e dois filhos mortos por Israel — um deles esmagado por um tanque.
Jornalistas não são desprovidos de emoção. Quando apuramos uma notícia e escutamos um relato doloroso, talvez o lado do repórter mascare um pouco o lado do ser humano. Finalizado o nosso trabalho, nos colocamos sempre no lugar do outro. E aprendemos muito a valorizar a vida.
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