
Diego e Rafael tinham CPF, eram amados por alguém e, com certeza, tinham planos. Mas, de modos diferentes, seus sonhos foram reduzidos a pó pela indiferença daqueles que se dizem seres humanos. Sim, teoricamente iguais. Pessoas. De CPF, família e projetos de vida. Diego Rafael da Silva, de 19 anos, trabalhava na coleta de lixo em mais uma madrugada de lida em São Paulo. Era domingo, 26 de julho. Entre contêineres, foi colhido por despojos de humanidade. Um motorista a bordo de uma Land Rover, bêbado, lançou-o para a morte. Como uma besta se arremete sobre sua presa. As câmeras de segurança capturaram tudo. O caminhão da coleta de lixo estava estacionado, com todas as luzes de alerta acesas. Uma médica que passava pelo local prestou o primeiro atendimento ao rapaz. No hospital, nada foi possível fazer. Diego morreu ali, arrancado da vida de forma torpe, absurda e banal. O gari que tinha sonhos deixou uma filha de 1 ano e a esposa, grávida de sete meses. O responsável pelo atropelamento, depois de cumprir sua pena, voltará ao aconchego do lar e da família.
Rafael Vinícius Silva de Souza tinha 35 anos. Seus últimos gritos e suspiros ecoaram pelas ruas de Catalão, no sudeste de Goiás. Rafael implorou por ajuda, mas seu clamor parece ter sido lançado no vácuo da indiferença e do desprezo. Aguardou duas horas por uma ambulância que não apareceu. Esperou por um gesto de cuidado de médicos e enfermeiros. Mas o socorro nunca veio. Naquela noite de 20 de julho, segunda-feira, as câmeras de segurança mostraram Rafael batendo de porta em porta. Implorava aos moradores que pedissem ajuda. Parecia desorientado. Até que apoiou-se em uma lixeira e ali caiu, até morrer, duas horas depois. A Polícia Científica aguarda os resultados dos exames de necropsia, mas uma avaliação preliminar sugere overdose.
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O destino de Diego e Rafael nos impõe um convite cruel à reflexão. Onde falhamos como humanidade? Qual é o valor exato de uma vida? Os trágicos desfechos de duas vidas deveriam causar assombro, indignação e levar a algum tipo de providência das autoridades. Talvez leis ainda mais severas de trânsito, talvez uma política antidrogas de prevenção aliada a medidas de combate à criminalidade. Impedir que a droga chegue ao dependente químico. Nossos legisladores precisam atuar bem além do conforto de seus gabinetes com ar-condicionado, assessores e regalias. Espera-se deles ações de compromisso com a segurança e o bem-estar da sociedade. Não arrotos de egocentrismo ou autobajulação.
Fico pensando nas famílias de Diego e de Rafael, vítimas da frieza e da apatia do próximo. Imagino como serão os próximos Natais, os aniversários, a ausência do abraço e do afeto, a presença devastadora da saudade, que sangra o peito e se funde à certeza de que ela jamais se findará. Diego e Rafael mereciam uma vida longa, de prosperidade, amor e cura. Não de terminarem seus dias colhidos por um carro ou mortos aos pés da lixeira do esquecimento.
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