
Não podia ter feito nada melhor do que ver Othon Bastos no palco antes de iniciar esta semana. Teatro na veia é remédio para enfrentar a campanha política, que começa oficialmente e promete ser mais acirrada do que uma batalha épica no sertão — embora sem o brilho do complexo anti-herói Corisco, lendário personagem que lançou Othon em Deus e Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Reviver o passado de Othon Bastos, narrado por ele próprio no monólogo Não me entrego, não!, é também encarar o presente com vontade. É exatamente isso que o ator entrega no palco.
Aos 93 anos, com sete décadas e meia de atuação, Othon tem leveza e intensidade em igual medida. Durante uma hora e meia, faz uma varredura por movimentos culturais brasileiros, dos quais foi e é parte. Com a ajuda da Memória, interpretada pela atriz Marta Paret, que oferece deixas e ganchos para que ele continue a história, Othon passeia pelos seus momentos marcantes sem nostalgia, melancolia, amargura ou tristeza. "O importante é o legado: espero que as pessoas vivam com a alegria que eu vivo", disse ele em entrevista à Revista do Correio, publicada hoje.
Com generosidade, Othon vai além de si próprio, compartilhando com o público a memória de grandes nomes da arte brasileira. Na peça, escolheu falar de cinema — fez mais de 80 filmes — e sobretudo do teatro. "Tenho que falar de mim, mas vou falar da maneira mais simples possível, não quero glórias, não quero nada. Se fosse viver de glórias, seria absurdo. Nunca, em 75 anos de carreira, nunca me preocupei em fazer um Shakespeare. Prefiro fazer um personagem como o Corisco, que tem o Brasil dentro de si. Qualquer peça shakespereana é uma honra, mas nunca tive esse sonho. Não está em mim a Inglaterra", disse a Nahima Maciel, Paloma Oliveto e Sibele Negromonte, do Correio.
Ter o Brasil dentro de si é viver personagens que contam a nossa história. Em 2018, no filme O paciente, de Sérgio Rezende, Othon interpretou Tancredo Neves. Para ele, "um filme fundamental para a memória e a história do Brasil", que deveria estar sendo exibido nas escolas. Sim, a arte fala de política de um jeito muito especial, ajudando a eternizar momentos que os livros didáticos não dão conta de revelar sozinhos.
Por isso, a cultura brasileira tem um papel importantíssimo. No caso de Othon e do seu monólogo, que desde 2024 lota teatros, é também uma injeção de ânimo para o dia a dia e um convite à lucidez, à avidez por viver o presente, mesmo falando de passado. Garantiu meu combustível por três meses até as próximas eleições, que são um pedaço de história que eu nunca me recuso a viver.
Aqui no Correio, já estamos vivendo a eleição com toda a intensidade, porque temos a responsabilidade de ser a memória da capital do Brasil. Sabatinas com os 11 candidatos ao GDF, entrevistas e análises diárias, debate com os postulantes ao Buriti no próximo dia 1º de setembro, em parceria com a TV Brasília, e muito mais. Convido os brasilienses a acompanharem nossa cobertura. Informar-se com jornalismo de qualidade é preservar a memória e ser parte da história.

Opinião
Opinião