
Por Bladimir Carrillo, pesquisador da EESP-FGV
Por que mulheres passam a ganhar menos depois de terem filhos? Essa é uma das perguntas mais estudadas pela economia do trabalho nas últimas décadas. Em praticamente todos os países onde há dados de boa qualidade, observa-se um padrão semelhante: após o nascimento do primeiro filho, a renda das mulheres cai de forma persistente em relação à dos homens e também em relação às mulheres sem filhos. Esse fenômeno ficou conhecido como child penalty, ou penalidade da maternidade.
Durante muito tempo, o debate público tratou essa perda de renda como consequência quase inevitável da redução da jornada de trabalho ou da saída temporária do mercado de trabalho. Essa explicação ajuda a entender parte importante da desigualdade entre homens e mulheres, mas provavelmente não toda a história.
Pesquisas que tenho desenvolvido com Danyelle Branco, Luiz Felipe Fontes e Laisa Rachter sugerem que essa visão está incompleta. Utilizando dados administrativos que acompanham milhares de médicas brasileiras ao longo de vários anos, conseguimos observar não apenas quanto elas trabalham, mas também quais procedimentos realizam, como sua produção é remunerada e como sua rotina muda após a maternidade.
O resultado mais surpreendente é que, depois de terem filhos, as médicas continuam trabalhando praticamente a mesma quantidade de horas. Também não encontramos evidências relevantes de que abandonem hospitais ou façam grandes mudanças de carreira. Ainda assim, sua remuneração sofre uma queda persistente.
De onde vem essa perda?
A resposta parece estar nas oportunidades de trabalho às quais essas profissionais continuam tendo acesso. Após a maternidade, elas passam a concentrar sua atuação em menos hospitais, trabalham em menos dias da semana e participam menos de procedimentos complexos e melhor remunerados. Ao mesmo tempo, assumem relativamente mais tarefas de apoio e atividades não clínicas. Em outras palavras, permanecem na profissão, mas deixam de acessar parte das oportunidades que geram maior valor.
Esse resultado amplia nossa compreensão sobre a penalidade da maternidade. Em muitas profissões altamente qualificadas, a desigualdade pode surgir não apenas porque mulheres trabalham menos, mas porque passam a ter menor acesso às atividades de maior retorno econômico dentro da própria ocupação.
A implicação para políticas públicas e para organizações é importante. Se o problema estivesse apenas nas horas trabalhadas, soluções como ampliar a oferta de creches seriam suficientes. Mas, se parte da desigualdade decorre da forma como o trabalho é organizado e de como oportunidades são distribuídas após a maternidade, torna-se igualmente importante pensar em mecanismos que preservem o acesso das mães a projetos, clientes, procedimentos e responsabilidades de maior valor.
O debate sobre igualdade de gênero costuma concentrar-se em aumentar a participação feminina no mercado de trabalho. Isso continua sendo essencial. Mas nossos resultados sugerem que a discussão precisa ir além. Tão importante quanto garantir que mães permaneçam trabalhando é garantir que continuem tendo acesso às mesmas oportunidades de crescimento, liderança e produção que tinham antes da maternidade. Talvez a maior penalidade não esteja apenas no tempo dedicado ao trabalho, mas nas oportunidades que deixam de surgir depois que elas retornam.

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