
Este tem sido um ano de muitas perdas na teledramaturgia brasileira. Os falecimentos das atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes, na última semana, somam-se às passagens dos novelistas Manoel Carlos e Benedito Ruy Barbosa, no primeiro semestre, apontando um ponto em comum para além da importância de cada um para a nossa cultura: todos atravessaram mais de nove décadas de vida. E isso, embora não torne a despedida menos dolorosa, convida a uma reflexão diferente sobre a morte. Porque morrer perto de completar 100 anos não é apenas sobre partir, mas também sobre descansar.
É fato: a saudade não diminui porque alguém viveu muito. Para quem cresceu vendo as grandes atrizes na televisão ou se emocionou com as histórias escritas pelos mestres da dramaturgia, a ausência continua sendo ausência. Há personagens, cenas e novelas que se confundem com períodos inteiros da vida do público e, quando seus criadores e intérpretes se vão, uma parte dessa memória coletiva também perde sua presença mais concreta.
Mas existe nessas despedidas uma diferença fundamental. Não estamos diante de vidas interrompidas, mas de trajetórias cumpridas. Laura Cardoso atravessou praticamente toda a história da televisão brasileira. Glória Menezes se tornou uma das grandes atrizes do país. Manoel Carlos construiu um universo próprio, transformando relações familiares e afetivas em matéria de identificação. Benedito Ruy Barbosa levou para a tela um Brasil que, muitas vezes, ficava distante dos grandes centros. À sua maneira, cada um ajudou a construir o que hoje reconhecemos como patrimônio afetivo da televisão.
Talvez seja justamente por isso que seja possível olhar para essas mortes também com uma espécie de serenidade. Vivemos em uma sociedade que costuma enxergar a morte apenas como derrota, como o que rouba o futuro. Mas, depois de décadas de trabalho, criação e reconhecimento, é preciso admitir que existe também o direito ao descanso.
Não é um convite a romantizar a morte, porque quem fica sente falta. Mas há algo reconfortante na certeza de que o trabalho foi feito. A morte encerra uma vida, mas não uma obra. Uma personagem reaparece numa reprise, uma novela volta ao streaming, uma cena é lembrada, e, de repente, a voz, o rosto ou o universo está novamente ali, disponível tanto para quem viveu a história quanto para quem ainda vai descobri-la.
É natural chorar por eles, mas, talvez, devêssemos acrescentar à tristeza uma dose de gratidão. Gratidão pelo tempo que tiveram, por tudo o que criaram e pelo que deixaram. E isso não vale apenas para figuras públicas, mas para nossos pais, avós, bisavós, tios próximos que se vão todos os dias.
Há mortes que nos fazem perguntar o que mais uma pessoa poderia ter realizado, mas é importante perceber tudo o que já foi realizado. Essas pessoas idosas que se vão fazem falta, mas, olhando para tudo o que deixaram, talvez seja possível dizer que a existência foi cumprida. Agora, é hora de descansar.

Opinião
Opinião
Opinião
Opinião
Opinião
Opinião