Artigo

O que as redes sociais ensinam ao Estado

Uma política de segurança pública responsiva não deve ser governada pelos assuntos do momento, mas tampouco pode ignorar os sinais que deles emergem

Redes Sociais tempo gasto -  (crédito: Caio Gomez)
Redes Sociais tempo gasto - (crédito: Caio Gomez)

Por Marco Antônio Farah de Mesquita, delegado de Polícia, mestre em gestão pública pela UNB, doutorando em economia política pela UNB e Andrea Felippe Cabello, mestre e doutora em economia pela UNB


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A agressão sofrida por um jovem de 18 anos em Águas Claras, atacado por um homem em situação de rua, rapidamente deixou de ser apenas uma ocorrência policial. Em poucos dias, o episódio dominou as redes sociais, mobilizou moradores e reacendeu o debate sobre a atuação do Estado diante de pessoas em surto e em situação de rua. Coincidência ou não, o Distrito Federal acaba de discutir um projeto de lei que amplia a atuação integrada do poder público e disciplina a internação involuntária, em situações excepcionais.

A interpretação mais comum é que casos como esse pressionam governos a agir. Mas talvez esse nem seja seu efeito mais importante. Antes de influenciar políticas públicas, as redes sociais influenciam aquilo que o Estado deixa de poder ignorar. Elas não dizem ao Estado qual é o problema mais grave. Mas influenciam fortemente quais problemas passam a ocupar sua agenda.

É justamente aí que mora uma confusão frequente. A repercussão de um caso não significa, necessariamente, que estamos diante de uma epidemia. Um vídeo viral não mede a incidência de um problema. O caso de Águas Claras, por exemplo, não demonstra que haja uma explosão de ataques semelhantes nas ruas do Distrito Federal. Da mesma forma, o aumento dos registros de violência doméstica ou de injúria racial não significa, necessariamente, que esses crimes passaram a ocorrer com maior frequência. Em muitos casos, significa que vítimas passaram a denunciar mais e que o próprio Estado aprendeu a reconhecer e classificar situações que antes permaneciam invisíveis.

Os dois erros são igualmente perigosos. O primeiro é imaginar que a viralização de um caso revela, por si só, a gravidade estatística de um problema. O segundo é concluir que, por não medir incidência, ela é irrelevante para a formulação de políticas públicas. Não é. Casos que mobilizam a opinião pública frequentemente revelam questões que o Estado ainda não havia aprendido a enxergar.

Isso acontece porque nenhuma instituição é capaz de dedicar a mesma atenção a todos os problemas ao mesmo tempo. Recursos são escassos, equipes são limitadas e prioridades precisam ser estabelecidas diariamente. Toda burocracia faz escolhas sobre o que monitorar, registrar, investigar e priorizar. Quando um episódio ganha enorme repercussão, ele deixa de ser apenas uma ocorrência individual e passa a sinalizar que determinado tema já não pode mais ser tratado como periférico. As respostas variam conforme a instituição: a polícia pode rever protocolos de atendimento, a assistência social reorganizar fluxos, a saúde fortalecer mecanismos de acolhimento e o Legislativo discutir mudanças normativas. Cada órgão aprende à sua maneira, mas todos passam a operar em um ambiente no qual ignorar aquele problema se torna mais custoso.

As redes sociais, portanto, não são um sistema de estatísticas. Tampouco constituem um retrato perfeito das prioridades da sociedade, já que também refletem algoritmos, grupos organizados, disputas de agenda e diferentes capacidades de mobilização. Ainda assim, funcionam como uma poderosa aproximação das preocupações que ganham relevância social e, sobretudo, como um mecanismo de descoberta de problemas que as instituições ainda não haviam incorporado plenamente à sua capacidade de ação.

Uma política de segurança pública responsiva não deve ser governada pelos assuntos do momento, mas tampouco pode ignorar os sinais que deles emergem. O papel do Estado não é transformar todo caso viral em política pública, nem descartar a repercussão como mero sensacionalismo. É investigar se aquele episódio revela um problema negligenciado, medir sua dimensão com evidências e, quando necessário, transformar esse aprendizado em protocolos, políticas e capacidades permanentes. Um vídeo viral jamais substituirá as estatísticas. Mas pode ser o primeiro alerta de que a sociedade passou a enxergar um problema que o Estado ainda não havia aprendido a ver.

 


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Por Opinião
postado em 21/08/2026 06:01
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