
Por Valdir Oliveira, ex-Secretário de Desenvolvimento Econômico do Distrito Federal
Durante muito tempo, as políticas de crédito para os pequenos negócios foram construídas a partir de uma pergunta: como ampliar o acesso ao crédito? A experiência mostra que essa pergunta é insuficiente. O desafio não é apenas fazer o dinheiro chegar ao empreendedor, mas criar condições para que seja bem utilizado, fortaleça empresas e produza efeitos duradouros na economia do território.
É nesse ponto que surge o crédito assistido. Diferentemente do modelo tradicional, ele compreende o financiamento como um processo. Antes do crédito, há diagnóstico. Na contratação, é preciso encontrar valor, prazo e parcela compatíveis com a capacidade da empresa. Depois da liberação, orientação e acompanhamento ajudam a transformar crédito em resultados para a empresa e, a partir dela, para o território.
A lógica é simples: o empreendedor recebe dois tipos de capital — financeiro e gerencial. Um permite investir, produzir e crescer. O outro amplia sua capacidade de utilizar bem esses recursos.
As evidências mostram que essa combinação funciona. Pesquisa do Banco do Nordeste (BNB) e do Sebrae sobre micro e pequenas empresas encontrou resultados importantes na geração de empregos. O crédito sozinho teve efeito estimado de 9,7% sobre o emprego e a consultoria, de 2,4%. Quando as empresas receberam os dois, o efeito chegou a 15,6%. Em outras palavras, a orientação ajudou o crédito a produzir mais resultado e mais empregos.
Os resultados sobre sobrevivência também são expressivos. Pesquisas do Sebrae mostram que os primeiros anos são críticos para os pequenos negócios. Nesse contexto, outra pesquisa do BNB e do Sebrae mostrou que, depois de seis anos, 89,5% das empresas que receberam crédito e consultoria permaneciam em atividade. E o momento da orientação fez diferença: quando crédito e consultoria foram recebidos no mesmo ano, o risco de encerramento foi 50% menor.
Esses números mostram que uma política de crédito não deve ser avaliada apenas pela quantidade de contratos ou pelo volume liberado. É preciso perguntar o que aconteceu com as empresas depois do financiamento. E, principalmente, com o território.
É aí que o crédito assistido ganha dimensão territorial. Cada território possui vocações econômicas, cadeias produtivas, dificuldades e oportunidades próprias. O crédito precisa dialogar com essa realidade, identificando os pequenos negócios que podem ser fortalecidos e os obstáculos ao seu crescimento.
Isso exige mais do que disponibilizar linhas de financiamento. Instituições financeiras, organizações empresariais, governos locais e agentes de desenvolvimento precisam atuar de forma articulada para diagnosticar necessidades, orientar empreendedores, facilitar o acesso ao crédito adequado e acompanhar resultados. O território deixa de ser apenas o endereço onde o dinheiro é emprestado e passa a ser o espaço onde o crédito se transforma em desenvolvimento.
Focar no crédito assistido dentro do território não significa defender o isolamento. Territórios precisam vender para fora, atrair investimentos e acessar mercados, tecnologia e conhecimento. O desafio é combinar integração com capacidade de gerar e reter valor localmente. O problema não é o dinheiro sair do território; é sair rápido demais, sem produzir novos ciclos de atividade econômica.
O crédito assistido contribui para essa dinâmica ao ampliar a capacidade dos pequenos negócios de transformar financiamento em investimento, produtividade, emprego e renda. Seus resultados também precisam ser medidos para além de contratos e recursos liberados, acompanhando sobrevivência empresarial, inadimplência, emprego, renda e investimento.
Durante décadas, discutimos quanto crédito deveria chegar aos pequenos negócios. Essa discussão continuará necessária. Mas talvez seja hora de acrescentar outra pergunta: quanto desenvolvimento cada real de crédito consegue produzir no território onde é aplicado?
Desenvolver um território significa criar condições para que seus empreendedores tenham acesso ao crédito adequado, saibam utilizá-lo e transformem recursos financeiros em empresas mais sustentáveis, empregos, renda e oportunidades. É quando isso acontece que o crédito assistido revela toda a sua força: deixa de ser apenas uma forma de financiar empresas e se consolida como um importante instrumento de desenvolvimento territorial.

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