
Poucos homens fizeram mais para construir o mundo digital do que Bill Gates. E poucos estão tão preocupados com o que esse mundo está prestes a se tornar. Na quarta-feira, Gates publicou em seu site pessoal um longo ensaio sobre inteligência artificial. Não é a primeira vez que o fundador da Microsoft escreve sobre o tema, mas esse texto tem um tom diferente dos anteriores. Afinal, ele é um dos últimos gênios vivos da era que criou o mundo digital, alguém que já programava computadores aos 13 anos e que passou décadas moldando a tecnologia que hoje usamos. Quando ele escreve sobre o futuro da IA, não está especulando de fora.
O aviso, porém, é grave. No texto, Gates afirma ser otimista, mas o otimismo que descreve é o de quem acredita que um desastre pode ser evitado, não o de quem acha que as coisas vão bem. Ele é explícito: não vê evidências de que líderes, especialistas e comunidades estejam enfrentando os desafios que a inteligência artificial vem impondo à humanidade de forma adequada.
O núcleo do problema, segundo Gates, é a velocidade. Para ele, a IA não vai se comportar como as revoluções tecnológicas anteriores, que levaram gerações para se consolidar e criaram novos empregos enquanto destruíam outros. Desta vez, a tecnologia substitui a cognição humana, e faz isso em todos os setores ao mesmo tempo, em menos de uma década. Os empregos que vão desaparecer primeiro são os de entrada e nível médio. Os novos empregos que surgirão exigirão anos de requalificação. E quem não tiver tempo para se requalificar, como o trabalhador de 55 anos ou o jovem que entra num mercado com menos vagas, simplesmente não terá para onde ir.
O aviso de Bill Gates deveria estar sendo analisado pelo Brasil com urgência. O país que ainda luta para universalizar o ensino médio, que tem milhões de trabalhadores em ocupações informais e que carece de uma política industrial consistente está particularmente exposto ao tipo de choque que Gates descreve. Enquanto países ricos debatem como desacelerar a adoção da IA para dar tempo aos trabalhadores de se adaptarem, o Brasil ainda não começou a debater o básico: quais setores serão mais afetados, como proteger os mais vulneráveis e qual papel o Estado deve assumir nessa transição. A ausência de um plano é uma escolha, e uma das mais perigosas que um país pode fazer neste momento.
Gates propõe, entre outras ideias, o conceito de "Human Reserved" (reserva humana, em tradução livre), uma espécie de reserva natural para o trabalho humano, em que certas funções seriam deliberadamente protegidas da automação por decisão política e social. O cuidado com idosos, a educação, a saúde mental. Funções em que a presença humana não é apenas eficiente, mas essencial.
É uma ideia atraente, e funcionaria bem em países com capacidade institucional para implementá-la, financiá-la e fiscalizá-la. Para o Brasil, porém, a proposta exige uma honestidade sobre nossas limitações. Implementar uma política de reserva humana pressupõe que o Estado seja capaz de definir quais funções proteger, financiá-las e fiscalizar seu cumprimento. Não é impossível, mas exige um nível de planejamento e coordenação que o país raramente demonstrou em transições econômicas anteriores.
Gates ainda compara o momento atual ao período anterior à pandemia de covid, quando havia alertas claros, tempo para agir e vontade política insuficiente. O resultado daquela omissão foi catastrófico. A diferença, porém, é que a IA não vai durar alguns anos e passar. Ela vai se aprofundar, expandir-se e se tornar mais capaz indefinidamente.
Se o homem que criou a Microsoft, que conhece a tecnologia por dentro e que passou décadas usando sua fortuna para tentar melhorar o mundo diz que não há plano e que o tempo está se esgotando, é razoável concluir que a situação é muito mais séria do que os discursos de cúpulas e conferências sugerem. E que os países que chegarem tarde a essa conversa pagarão um preço que nenhum programa social conseguirá cobrir.

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