Na minha avaliação, as maiores intérpretes do nosso cancioneiro fizeram parte da geração de ouro da música popular brasileira. São cantoras que surgiram, com destaque, entre as décadas de 1960 e 1980: Ângela Maria, Nora Ney, Dolores Duran, Elis Regina, Maria Bethânia, Gal Costa, Nana Caymmi, Elza Soares, Alaíde Costa, Ângela Rô Rô e Zizi Possi.
Mais recentemente, ou melhor, nas décadas seguintes, surgiram Cássia Eller, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto, Ana Carolina, Marisa Monte, Mônica Salmaso, Teresa Cristina, Céu, Roberta Sá, Duda Beat, Luedji Luna. Cada uma com sua característica, mas todas responsáveis por importante contribuição para o engrandecimento desse segmento da cultura do país.
Aleatoriamente, na manhã da última sexta-feira, ao separar um CD para ouvir, a escolha recaiu sobre o Elis especial, lançado em 1968, quando a Pimentinha — como ela era carinhosamente chamada pelos amigos — vivia um momento de grande relevância em sua trajetória. O álbum, que fez parte de uma coleção da Folha de São Paulo, reúne nas 10 faixas do repertório músicas de vários compositores — todas clássicos da MPB.
Naquela época, Elis vivia um período de relevância no espectro da música popular brasileira e, diante de enorme expectativa, entrou no estúdio da gravadora Philips para fazer o registro da voz afinadíssima do que viria a ser seu 11º álbum.
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Assisti a um único show de Elis. Foi o Essa mulher, em 23 de novembro de 1979, em um recital no Cine Brasília. Naquela oportunidade, tive o privilégio de ouvi-la interpretar canções como As aparências enganam, Basta de clamares inocência e O bêbado e o equilibrista.
Horas antes, no meio da tarde, estava cheio de orgulho diante da estrela no saguão do extinto Torre Palace Hotel — recentemente demolido — para entrevistá-la. À época, o país vivia sob a tirania da ditadura militar.
Num dos momentos da nossa conversa, com o rompante de um jovem repórter, perguntei por que havia aceitado fazer uma apresentação no encerramento das Olimpíadas do Exército, no Mineirão, em Belo Horizonte. Demonstrando convicção, Elis respondeu: "Quero deixar claro que fui obrigada. Chegaram para mim e perguntaram: 'Quer ir ou prefere ser levada?'. Diante de tanta amabilidade, fui".
Tempos depois, em 2003, a estrela já havia partido para outra dimensão, quando, a convite da gravadora Warner, fui a São Paulo participar da entrevista coletiva de Maria Rita, a filha dela, que estava lançando o disco de estreia.
Ao deixar claro que havia herdado o bom gosto da mãe, incluiu no line-up canções de Milton Nascimento e Fernando Brant (Encontros e despedidas), Rita Lee (Agora só falta você) e Menininha do portão (Nonato Buzar e Paulinho Tapajós). O primeiro single, porém, foi Cara valente, de Marcelo Camelo. Como o álbum, obteve expressiva vendagem, e o trabalho da intérprete, de uma hora para outra, foi reconhecido nacionalmente e até no exterior.
