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Quilombo intelectual que redesenhou a cidadania negra no Brasil

Fundado em 1975, em pleno rigor do regime militar, o IPCN não foi apenas um centro de estudos; foi o "laboratório" político no qual se forjou a transição da resistência cultural para a exigência de direitos constitucionais para o povo preto

Por Marcia Gloria da Costa Lima, mãe, avó, companheira, formada em Letras (LP e inglês) e presidenta do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras, IPCN

Sou Marcia Gloria, uma mulher preta, bisneta de Antonieta, neta de Juracy e filha de Walcirene, mulheres pretas que foram importantes na minha vida e na vida de nossa família. Meu pai, Gilson, foi um sindicalista atuante de quem herdei minha veia de luta. Sou professora pública e, nesse momento da história, sou a presidente dessa instituição que agora apresento, Instituto de Pesquisas das Culturas Negras, IPCN.

A história da luta por direitos civis no Brasil possui marcos indeléveis, mas poucos são tão sofisticados e influentes quanto o IPCN. Fundado em 1975, em pleno rigor do regime militar, o Instituto não foi apenas um centro de estudos; foi o "laboratório" político no qual se forjou a transição da resistência cultural para a exigência de direitos constitucionais para o povo preto.

O IPCN surgiu no Rio de Janeiro com uma missão clara: desconstruir a falácia de que o Brasil era um paraíso racial. Enquanto o Estado promovia a ideia de uma integração harmônica, o Instituto utilizava a pesquisa acadêmica e a expressão artística para expor as feridas do racismo estrutural.

A instituição serviu como um porto seguro para intelectuais e artistas que entendiam que a cultura negra era, em si, um ato político. Ali, a identidade era resgatada não como folclore, mas como ferramenta de emancipação.

A força do IPCN residia na pluralidade de seus membros. A instituição conseguiu unir o saber acadêmico, a força do asé e o brilho dos palcos em um único projeto de nação. 

Vejamos algumas de nossas estrelas:

Milton Gonçalves: como um dos fundadores e militante, trouxe a dignidade do corpo preto para o centro da cena pública. Milton foi fundamental na estruturação institucional, provando que o artista preto deveria ser, antes de tudo, um cidadão consciente.

Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento: o cérebro teórico do movimento. Lélia introduziu o conceito de "amefricanidade", unindo as lutas continentais das nações africanas e das nações indígenas das Américas, enquanto Beatriz conectou a história dos quilombos à experiência urbana, transformando a memória em estratégia de sobrevivência.

Benedita da Silva e Jurema Batista: representaram a vertente da articulação política e jurídica. Elas levaram as discussões do IPCN para os espaços de poder, representando a voz das mulheres negras nos parlamentos. 

Ney Lopes e Helena Teodoro: guardiões da memória e da filosofia. Ney, com sua vasta pesquisa sobre a diáspora, e Helena, com seu olhar antropológico sobre o samba e a ancestralidade, deram profundidade teórica à identidade negra brasileira.

Bábá Ivanir dos Santos: trouxe a urgência da luta contra a intolerância religiosa, conectando o direito ao culto com o direito à vida. 

A importância do IPCN é mensurável através das vitórias jurídicas colhidas na redemocratização. O Instituto foi uma das células mais ativas na articulação da Assembleia Nacional Constituinte. São nossas conquistas ao lado de outros e outras: direitos conquistados; militância engajada; criminalização do racismo; pressão direta para que o racismo se tornasse crime inafiançável e imprescritível (Art. 5º, XLII); terras quilombolas; fundamentação histórica (liderada por nomes como Beatriz Nascimento) para o reconhecimento das comunidades remanescentes; educação antirracista; semeadura dos conceitos que décadas depois culminariam na Lei 10.639/03 (ensino de história africana).

O IPCN mudou o paradigma da militância negra no Brasil. Ele ensinou que, para adquirir direitos, o povo preto precisava de autodefinição. Não bastava ser o "objeto" de estudo de sociólogos brancos; era necessário que o preto fosse o sujeito da própria história, o pesquisador da própria cultura e o advogado da própria causa.

Falar do IPCN é falar de um projeto de país que ainda está em construção. Através das mãos de Milton, Lélia, Benedita e tantos outros, o instituto provou que a cultura negra é o alicerce da democracia brasileira. Sem o rigor intelectual e a coragem política desenvolvida naquelas salas de pesquisa, o Brasil de hoje não teria as ferramentas institucionais que possui para combater o racismo. O IPCN não apenas registrou a história; ele a mudou.

 


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