
A onda de violência envolvendo pessoas em situação de rua escalou de tal forma nos últimas dias que passou a preocupar ainda mais os moradores do Distrito Federal. Em menos de duas semanas, ocorreu mais de uma dezena de casos graves, concentrados principalmente no Plano Piloto Às vésperas do início da campanha eleitoral, o assunto aparece nas conversas em padarias, barbearias, salões de beleza e grupos de condomínios no WhatsApp. A sensação de insegurança é real.
Vou me ater a três episódios que ilustram bem essa preocupação. Na Asa Norte, um homem atacou um zelador a pauladas. Na 302 Sul, uma pessoa em situação de rua invadiu um prédio e manteve uma idosa de 97 anos como refém. Na mesma quadra, uma criança de 5 anos levou um violento chute na cabeça de um desabrigado, tudo registrado pelas câmeras de segurança. São casos diferentes, sem nenhuma conexão entre eles, mas que acabam produzindo o mesmo resultado: o medo de circular e usar os espaços públicos.
É preciso, porém, evitar uma associação automática entre situação de rua e criminalidade. Em 2025, o DF contabilizava 3.521 sem-teto. O levantamento apresentado pelo próprio governo local mostra que a maior parte desse grupo é formada por pessoas em situação de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, há entre elas dependentes químicos e pessoas com histórico de violência. Ignorar qualquer uma dessas realidades não ajuda a enfrentar o problema.
Também está claro que ações isoladas não dão conta da situação. Retirar barracas de uma área e levar as pessoas para outro ponto até muda a paisagem por algum tempo. Mas, sem tratamento, acolhimento, moradia e acompanhamento, o problema reaparece. A rua continua sendo o destino de quem não encontra uma alternativa.
A pesquisa Correio/Opinião Inteligência Política mostra o tamanho da cobrança. Para 92,8% dos eleitores do DF, é importante ou muito importante que o próximo governo desenvolva políticas para a população em situação de rua. O recado para quem pretende disputar o Palácio do Buriti é direto. O tema deve entrar na campanha e, pelo impacto que tem na rotina das pessoas, deve ganhar relevância até maior que o caso Master/BRB. Segurança é uma preocupação concreta para todos nós.
O eleitor quer mais policiamento e proteção, mas também espera uma resposta para as causas do problema. Cadastro e acompanhamento individual, prevenção, tratamento da dependência química, moradia e políticas de renda precisam deixar de ser ações desconectadas e fazer parte de uma política contínua.
A campanha começa domingo, mas os candidatos começam a colocar as propostas na mesa. Alguns defendem internações involuntárias e uma presença maior da polícia. Outros apostam na rede dos Caps, em moradia, renda e reinserção social. Caberá ao eleitor comparar as propostas, verificar o que é possível colocar em prática e, sobretudo, cobrar resultados.
Brasília não pode tratar como normal o abandono de pessoas vulneráveis nas ruas. Também não pode deixar que moradores, comerciantes e trabalhadores convivam com medo. Uma política pública séria precisa lidar com os dois lados dessa equação: garantir assistência a quem precisa e segurança para quem mora na cidade. A eleição de 2026 será uma oportunidade para cobrar respostas que saiam do discurso e cheguem à vida real.

Opinião
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