Previsto para avançar nas próximas semanas, o debate em torno da proposta de emenda constitucional (PEC) que acaba com a escala 6x1 voltou a movimentar as discussões sobre trabalho, qualidade de vida e economia. Alguns comentários, controversos, chamaram-me a atenção — e nem estou me referindo àqueles ditos por empresários, tampouco vistos nas redes sociais. Não que se tratasse de uma grande novidade. É que, ao vivo, soa pior.
Dias desses, voltando para casa, ouvi de um rapaz no ônibus, cujo rosto vejo com frequência durante a semana, que o fim da escala 6x1 seria o fim para os empresários, "aqueles que empregam o pobre". Segundo ele, falta a quem reclama do trabalho mais trabalho. O colega a quem ele se dirigia concordou, acrescentando que "isso (a reivindicação por mais qualidade de vida) é papo de preguiçoso", "um privilégio".
Comentei sobre o rosto ser conhecido porque, apesar de não saber o seu nome, sei que mora a pelo menos 40km do trabalho e depende de transporte público. Atenta, também notei que é terceirizado de uma empresa que presta serviços a um órgão público. Diferentemente de quem se opõe à proposta por interesse econômico, o passageiro do ônibus era, como eu e a maioria de nós, classe trabalhadora. Às vezes, por ilusão ou desilusão, a gente ignora isso.
Uma pesquisa do Datafolha, realizada há dois meses, apontou que 40% dos brasileiros atribuem a pobreza à preguiça ou à falta de vontade de trabalhar. Ironicamente, esquecem-se do fato de que a maior parte da população, inclusive esses mesmos brasileiros, está mais próxima da escassez do que da riqueza. Quando não nos iludimos, transformamos os desafios cotidianos — perder o ônibus, acordar de madrugada para não se atrasar ou desenvolver burnout — em meme e rimos. É para sofrer um pouco menos.
Nós não temos as mesmas 24 horas daqueles que, sentados em cadeiras ergonômicas e sob ar fresco, controlam nosso tempo. Quem dirá os profissionais que trabalham no comércio, em call centers ou em serviços de vigilância e limpeza. Soma-se à lista mulheres que acumulam jornada doméstica e de cuidado, jovens que tentam conciliar estudo e emprego e trabalhadores que levam horas para chegar à labuta.
Lidiane da Silva, pesquisadora periférica e mestre em semiótica, foi cirúrgica ao analisar o levantamento do Datafolha. "Quando o descanso do rico é autocuidado e o descanso do pobre é preguiça, não estamos falando de produtividade, mas sim de desigualdade social." No fim das contas, a discussão sobre a escala 6x1 funciona como um grande chá revelação de classe social. De que lado você está?
