
Valdir Oliveira — ex-secretário de Desenvolvimento Econômico do Distrito Federal
Imagine uma família reunida à mesa da cozinha. De um lado, as contas. Do outro, a renda do mês. Ela pretende pedir um empréstimo e precisa demonstrar que tem capacidade para pagá-lo.
A conta não fecha com folga. Em vez de reduzir os gastos, porém, a família retira algumas despesas da coluna considerada nesse cálculo e as registra separadamente. A planilha fica mais bonita. Parece que passou a sobrar dinheiro. Mas nenhuma conta foi paga ou eliminada. Elas apenas mudaram de coluna.
Guardadas as diferenças, essa cena doméstica ajuda a compreender o que está acontecendo com as finanças do Distrito Federal. Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, parte dos gastos que antes aparecia como despesa corrente passou a ser registrada como despesa de capital. Em outras palavras, algumas despesas trocaram de gaveta.
Na contabilidade pública, cada gaveta tem uma função. Em uma, ficam os gastos do dia a dia, necessários para manter o governo funcionando. Em outra, aparecem despesas como obras, equipamentos e outras aquisições que ampliam o patrimônio público.
O problema é que a Capacidade de Pagamento, a Capag, olha com atenção especial para a primeira gaveta. É ela que mostra quanto da receita já está comprometido com as despesas recorrentes do governo. Se alguns gastos são retirados dessa gaveta, ela fica mais leve. E, quando a gaveta fica mais leve, a nota pode melhorar.
O dinheiro gasto, entretanto, continua sendo o mesmo. A gaveta emagrece. O caixa, não. É nesse ponto que uma mudança que parece apenas contábil começa a produzir efeitos fora da planilha. A Capag funciona como uma nota de crédito do governo. Quanto melhor essa nota, maior a possibilidade de conseguir novos empréstimos com garantia da União.
Nos últimos meses, o GDF passou a anunciar uma recuperação fiscal surpreendentemente rápida. Divulgou que o resultado de 2026 para um dos indicadores da Capag teria alcançado 84,37%. Como o cálculo oficial também considera os dois anos anteriores, porém, o índice permanecia em 90,99%.
Mesmo assim, o governo passou a dizer que o Distrito Federal já apresentaria condições equivalentes à Capag A. A classificação oficial vigente atribuída pelo Tesouro Nacional continua sendo Capag C.
A distância entre o C oficial e o A anunciado já levantava dúvidas. A notícia de que algumas despesas mudaram de classificação acrescentou uma pergunta inevitável: a situação financeira melhorou ou foi a planilha que mudou?
Essa dúvida seria relevante em qualquer momento. Agora, é decisiva. A melhora anunciada faz parte da tentativa de viabilizar um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões para socorrer o Banco de Brasília, o BRB. A nova dívida é grande, e o risco não ficará preso em uma coluna da contabilidade. O governo aposta que os dividendos futuros do BRB ajudarão a pagá-la. Se o banco não conseguir gerar dividendos suficientes, a diferença terá de ser coberta pelo orçamento público.
E orçamento público não é dinheiro sem dono. É o dinheiro que financia hospitais, escolas, segurança, transporte e obras. No fim da linha, é o dinheiro da mesma família que começou esta história sentada à mesa da cozinha.
É preciso lembrar, ainda, que o ano não terminou. O governo divulgou resultados positivos de alguns meses e passou a projetar uma sobra bilionária no encerramento de 2026. Mas existem obrigações já assumidas e ainda não pagas.
É como olhar o saldo da conta no dia anterior ao vencimento do cartão. O dinheiro aparece no aplicativo, mas boa parte dele já tem destino.
Por isso, resultado parcial não é balanço anual. Projeção não é dinheiro em caixa. Simulação do governo não é nota oficial do Tesouro. E conta colocada em outra gaveta continua sendo conta.
Também é preciso separar duas histórias. Uma é a situação financeira do Distrito Federal. Outra é a crise provocada pelas operações do BRB com o Banco Master. O banco precisa de uma solução, mas ela não pode depender de uma fotografia retocada das contas públicas nem transferir silenciosamente o risco para o contribuinte.
Na contabilidade, uma despesa pode mudar de coluna, de classificação ou de gaveta. Na vida real, porém, mudar o nome de uma conta não faz a conta desaparecer.
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