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Para aprender o básico, é preciso ir além

Aprender não depende apenas do domínio de conteúdos, mas da capacidade de mobilizá-los diante de situações novas e complexas. Essa combinação de conhecimentos e competências está justamente entre os fundamentos da educação integral

. -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
. - (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

Beatriz Alquéresgerente executiva de Advocacy do Instituto Ayrton Senna

No Brasil, 72% dos estudantes de 15 anos dizem ter curiosidade sobre muitos assuntos diferentes e 59% relatam aplicar esforço adicional quando o trabalho se torna desafiador. Além disso, 82% afirmam que, na maioria das aulas de ciências, seus professores demonstram interesse pela aprendizagem de cada aluno, percentual superior à média da OCDE, segundo dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes(Pisa) divulgados nesta terça-feira. Nossos estudantes querem aprender. Nossos professores querem ensinar. Por que transformamos tão pouco dessa disposição em aprendizagem significativa nas escolas brasileiras?

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O Pisa é uma avaliação que traz questões complexas nas áreas de leitura, matemática e ciências, nas quais os estudantes precisam mobilizar não apenas diferentes conhecimentos, mas também competências como persistência, criatividade e organização do pensamento. Afinal, aprender não depende apenas do domínio de conteúdos, mas da capacidade de mobilizá-los diante de situações novas e complexas. Essa combinação de conhecimentos e competências está justamente entre os fundamentos da educação integral, abordagem que rege a educação no Brasil, presente na Constituição Federal, na Base Nacional Comum Curricular e em outras normativas que orientam as políticas nacionais.

No entanto, os resultados estagnados que observamos no Pisa desde 2015 podem apontar o quanto ainda não estamos conseguindo oferecer experiências e condições de aprendizagem para que nossos estudantes se desenvolvam amplamente. O contexto socioeconômico importa, mas não explica sozinho o desempenho. O Pisa mostra que a aprendizagem está associada a um conjunto de fatores que passam pelo apoio docente, pelo clima em sala de aula, pela frequência escolar e pelo apoio familiar, mas também por competências como curiosidade, persistência e autorregulação. Estudantes curiosos, por exemplo, tendem mais a conectar conteúdos novos ao que já aprenderam; a persistência é associada ao uso de estratégias de aprendizagem.

Em uma aula de matemática, educação integral não significa interromper a matemática para ter uma "aula de persistência". É colocar o aluno diante de um problema para o qual ele precise tentar estratégias diferentes, errar, revisar a estratégia, explicar seu raciocínio e escutar como outro estudante resolveu. Em língua portuguesa, não é ter uma "atividade de criatividade" na sexta-feira. É discutir um texto para o qual não exista apenas uma interpretação previamente esperada pelo professor. Em ciências, é menos "qual é a resposta correta?" e mais também "como você chegou até ela?", "que hipótese explicaria isso?", "que evidência faria você mudar de ideia?".

Um dado interessante do Pisa é o aumento do que eles chamam de "respostas apressadas", associadas a maiores chances de erro. Mais do que explicar esse comportamento, cabe perguntar se estamos oferecendo experiências que ensinem os estudantes a sustentar a atenção, persistir diante da dificuldade e ler com profundidade. Como a escola pode se limitar aos conteúdos curriculares sem desenvolver também essas competências?

Se queremos promover uma aprendizagem que integre conhecimentos e competências, precisamos também perguntar em que medida nossas avaliações conseguem enxergá-la. Como especialistas têm apontado, as avaliações nacionais historicamente vêm sugerindo uma melhora na aprendizagem dos nossos estudantes. Sem comparar diretamente avaliações tão diferentes, a distância entre esses resultados deveria ao menos nos provocar: será que estamos captando todas as dimensões da aprendizagem que queremos promover?

Talvez, nossas avaliações nacionais ainda iluminem apenas uma parte daquilo que precisamos enxergar.

Essa questão nos leva a uma provocação latente no debate educacional atual. Temos resultados ruins relacionados às aprendizagens básicas, mas será que para avançar nisso podemos olhar apenas para o básico? Temos tempo? Será possível melhorar na aprendizagem se endereçarmos apenas os conteúdos das disciplinas curriculares e ponto-final?

Em breve, teremos eleições e novos governos assumirão posições e responsabilidades com nossos estudantes e jovens. Debater com todos os envolvidos uma educação que dialogue com as necessidades atuais é não apenas oportuno, como deveria ser mandatório. Assim como o aprimoramento das avaliações nacionais e estaduais, para que possam olhar e iluminar outros fatores para além da aprendizagem tradicional.

Talvez o desafio não esteja na falta de disposição de estudantes ou professores, mas nas oportunidades que oferecemos para que essa disposição se transforme em aprendizagem. Se queremos resultados diferentes, precisamos ampliar não apenas o que ensinamos, mas como ensinamos e aquilo que escolhemos avaliar. Educação integral não é algo a acrescentar depois que o básico estiver resolvido. Pode ser justamente uma das condições para que o básico seja, de fato, construído.

 


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Por Opinião
postado em 09/09/2026 05:00
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