Artigo

Entre o sarampo e o HIV, o recuo da proteção pública

Conquistas sanitárias não são troféus guardados no passado. São pactos vivos. Quando deixamos de renová-los, a doença encontra o caminho que nós deixamos aberto

Campanhas de vacinação são necessárias, mas insuficientes. -  (crédito: Ualisson Noronha/Agência Saúde-DF)
Campanhas de vacinação são necessárias, mas insuficientes. - (crédito: Ualisson Noronha/Agência Saúde-DF)

Álvaro Madeira Netomédico sanitarista e gestor em saúde; vice-presidente da Associação Médica Cearense. É mestre e doutorando em administração pela EAESP/FGV

O sarampo não volta como quem reaparece, intacto, depois de longa ausência. Ele procura passagem. Em São Paulo, 30 casos confirmados em 2026 bastaram para expor uma verdade incômoda: doenças eliminadas não permanecem vencidas por decreto. Dependem de uma infraestrutura cotidiana de proteção, vacina disponível, vigilância alerta, equipes capazes de buscar quem ficou para trás e confiança pública cultivada antes da emergência.

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Os dados preliminares do Estado registram cobertura de 89,35% na primeira dose da tríplice viral e de 74,64% na segunda, abaixo da meta de 95%. Como o ano ainda está em curso, esses percentuais não equivalem ao fechamento anual; ainda assim, o intervalo de 14 pontos entre as doses acende um sinal conhecido. A imunidade coletiva não se rompe apenas nas grandes médias. Ela se desfaz em bolsões, e uma média estadual pode ocultar quarteirões inteiros de suscetibilidade: no bairro em que a sala de vacina fecha cedo, na família que muda de endereço e some do cadastro, na criança cuja segunda dose não foi lembrada, no trabalhador que não pode perder o dia.

É cômodo atribuir tudo à desinformação. Ela existe e prospera quando a dúvida é explorada como negócio e identidade política. Mas transformar cada não vacinado em culpado individual absolve a organização do cuidado. Há barreiras de horário, transporte, renda, registro e acolhimento. Há campanhas que falam muito e escutam pouco. A hesitação também cresce quando o Estado aparece apenas para convocar, nunca para permanecer. A proteção coletiva depende menos do brilho da campanha do que da regularidade silenciosa do serviço.

O alerta internacional sobre o HIV ilumina a mesma engrenagem por outro ângulo. Não se devem confundir doenças, formas de transmissão ou respostas sanitárias. Mas ambas revelam o preço da descontinuidade. Em 2025, 1,2 milhão de pessoas adquiriram HIV no mundo; na América Latina, as novas infecções cresceram 25% desde 2010; e o financiamento externo para programas de HIV caiu 18% em um ano. Quando prevenção, tratamento e organizações comunitárias perdem recursos, o vírus encontra o espaço deixado pela política pública. 

O Brasil exige leitura mais cuidadosa. Os registros de HIV passaram de 38.222, em 2023, para 39.216, em 2024. Notificação, porém, não é sinônimo perfeito de incidência: pode refletir transmissão, ampliação da testagem e recomposição dos serviços. A cidade de São Paulo oferece uma contraprova poderosa. As novas notificações caíram de 3.761, em 2016, para 1.662, em 2025, enquanto cerca de 80 mil pessoas estavam cadastradas para usar Profilaxia Pré-Exposição (PrEP). Não foi milagre farmacológico. Foi arquitetura pública: prevenção combinada, testagem acessível, tratamento oportuno, vigilância orientada por dados e presença junto a populações historicamente afastadas do cuidado. 

O sarampo expõe a geografia das brechas; o HIV, a política da continuidade. Ambos ensinam que campanhas são necessárias, mas insuficientes. Sistemas de saúde não se sustentam em espasmos de mobilização nem no heroísmo de profissionais condenados ao improviso. Precisam de memória operacional, estoques seguros, laboratórios ágeis, informação interoperável e atenção primária capaz de reconhecer o território não como mapa, mas como vida concreta.

São Paulo deveria instituir, por 90 dias, um comando territorial de imunidade: localizar microáreas abaixo da meta, buscar faltosos nominalmente, vacinar em escolas, terminais, locais de trabalho e fins de semana, medir a perda entre a primeira e a segunda dose e publicar resultados por território. Diante de cada suspeita de sarampo, notificação em até 24 horas, investigação imediata, rastreamento de contatos e bloqueio vacinal em até 72 horas. Para o HIV, é preciso blindar preservativos, PrEP, Profilaxia Pós-Exposição (PEP), autotestes, terapia antirretroviral e financiamento comunitário, com prioridade onde o estigma e a desigualdade ainda organizam o risco. 

À imprensa cabe evitar duas armadilhas: naturalizar o "retorno" e moralizar o comportamento. Epidemias não são castigos nem acidentes exteriores à sociedade. Elas revelam como distribuímos proteção, tempo, informação e futuro.

O Brasil não carece de conhecimento técnico. Falha, por vezes, em transformar conhecimento em rotina, direito em presença e campanha em política de Estado. Conquistas sanitárias não são troféus guardados no passado. São pactos vivos. Quando deixamos de renová-los, a doença não volta sozinha: encontra o caminho que nós deixamos aberto.

 

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Por Opinião
postado em 10/09/2026 05:00
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