Artigo

A América que o Brasil não quer ser

O Brasil não se reconhece latino-americano. Não por questão geográfica. Por projeto histórico. Este país foi construído sobre o desejo de ser europeu e, mais recentemente, sobre o sonho de ser norte-americano

. -  (crédito: kleber sales)
. - (crédito: kleber sales)

Vanessa Mulet pedagoga, gestora social e presidenta da Frente Negra Gaúcha (FNG)

Cuba atravessa uma crise profunda. Sanções e restrições que se acumulam há décadas, cortes de energia que chegam a 20 horas diárias, escassez de alimentos e medicamentos. Uma crise humanitária documentada. E o Brasil, em grande medida, assistiu em silêncio. Há brasileiros e brasileiras que sempre se solidarizaram com Cuba e reconhecem sua resistência; mas essa não é a voz que predomina. 

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O desconforto diante de Cuba não é novo, tampouco inocente: o Brasil não se reconhece latino-americano. Não por questão geográfica. Por projeto histórico. Este país foi construído sobre o desejo de ser europeu e, mais recentemente, sobre o sonho de ser norte-americano. Cuba incomoda porque representa o oposto: uma nação que resistiu décadas ao imperialismo americano, enviou combatentes ao continente africano em apoio a movimentos de libertação e teve sua contribuição reconhecida por Nelson Mandela na luta contra o apartheid.

Silenciar Cuba é uma posição política. Fingir que ela não é nossa vizinha de diáspora e de resistência, também é. Esse eurocentrismo não chegou ontem. Foi cultivado como política de Estado, como currículo escolar, como estética de elite. A extrema-direita brasileira apenas tornou explícito o que sempre operou nas entrelinhas: alinhar o Brasil a um projeto civilizatório que nega sua própria constituição. E quando alguém se atreve a nomear esse mecanismo, a resposta é tentar deslegitimar quem o denuncia. Chama-se de comunista. Chama-se de esquerdista. Como se defender a dignidade humana fosse um partido. 

A disputa em torno de Paulo Freire, referência mundial na educação, cujo título de Patrono da Educação Brasileira a extrema-direita tentou retirar, é mais uma expressão dessa recusa: atacar quem evidenciou que educação nunca é neutra é coerente com um projeto que não quer que as classes dominadas leiam o mundo de forma crítica. Como educadora formada por essa pedagogia, sei que a questão nunca foi ter ou não ter ideologia. É saber se ela é inclusiva ou excludente. 

Enquanto o Brasil virava as costas para a América Latina, as mulheres negras construíam a consciência continental que esse país recusava. Lélia Gonzalez, em Por um feminismo afro-latino-americano, nomeou essa consciência como amefricanidade: a diáspora africana como fio que une o continente, independentemente do idioma do colonizador, uma dimensão que o Brasil insistia em não reconhecer. 

Em 1992, cerca de 300 mulheres de 32 países reuniram-se em Santo Domingo no 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, que instituiu o 25 de julho como marco de resistência. Sueli Carneiro, bell hooks e Angela Davis evidenciaram que a subalternidade das mulheres negras não é circunstancial: é estrutural. E o apagamento que a produz opera com método: mulheres negras tiveram papel fundamental em processos de transformação política que a memória oficial recusou nomear. 

Quando Cuba aparece nos noticiários, o mundo fala de Che Guevara e Fidel Castro. Pouco se diz de Celia Sánchez, de Vilma Espín ou de Haydée Santamaría. No Brasil, falamos de Zumbi; pouco falamos de Dandara. Tereza de Benguela governou o Quilombo do Quariterê, no Vale do Guaporé, coordenando a política e a defesa de um território autônomo no século 18; sua memória resistiu pela tradição oral.

Como mulher negra gaúcha, observo: nos arquivos gaúchos, mulheres negras aparecem registradas apenas como "Maria, parda, escrava de..." ou "Rosa, crioula forra". Sem sobrenome. Sem história própria. A ausência de nomes não é falha do pesquisador: é dado político. A invisibilidade também foi institucionalizada nos próprios documentos. 

O Brasil que não se reconhece latino-americano é o mesmo que tenta apagar Paulo Freire dos currículos, que registra suas revolucionárias sem nome nos arquivos e que escalou atrizes brancas para interpretar Chiquinha Gonzaga, cuja ascendência negra foi apagada nessa representação. Não basta sumir dos documentos: é preciso embranquecer até na ficção.

 São gestos da mesma recusa: negar a própria constituição, plural, africana, indígena, mestiça. Reconhecer a América Latina começa por reconhecer quem nunca deixou de pertencer a ela. As mulheres negras sempre souberam. O Brasil ainda precisa aprender.

 

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Por Opinião
postado em 12/09/2026 05:00
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