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Dia do Cerrado: coração das águas, não deixe de pulsar

Ainda há metade do Cerrado de pé e a outra metade a se restaurar e produzir com sustentabilidade/responsabilidade. A pergunta não é se ele vai continuar pulsando, mas se nós vamos deixar

. -  (crédito: maurenilson)
. - (crédito: maurenilson)

Yuri Salmona pesquisador e diretor executivo do Instituto Cerrados

O Cerrado é bem mais que os belos ipês que colorem nossas cidades: é o coração das águas do Brasil, mas enfrenta dificuldades para pulsar. Ao mesmo tempo em que abastece generosamente oito das 12 regiões hidrográficas brasileiras, é também tratado como "celeiro do mundo", explorado para a produção de commodities agropecuárias. Essa sobreposição de realidades diz respeito a todos, inclusive a você.

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O Cerrado levou milhões de anos desenvolvendo tecnologias de adaptação e equilíbrio, em especial na interface entre a água da atmosfera e a do subsolo. Suas plantas se tornaram capazes de atravessar os períodos secos, adaptando as folhas e captando água no solo profundo, enquanto seus solos funcionam como esponjas, vertendo água para os rios durante a estiagem. Sem esse mecanismo, não há água nas cachoeiras nem nas nossas torneiras.

Sobre esse ecossistema, instalou-se em poucas décadas outro sistema: o da grande propriedade monocultural voltada à exportação, especialmente para produção de soja e carne bovina, seguindo o modelo colonial de plantation. Hoje, a agropecuária de larga escala ocupa cerca de metade do bioma, área equivalente à da França e da Espanha somadas. E não é só terra: segundo a Agência Nacional de Águas, irrigação e dessedentação animal respondem por quase 59% de toda a água retirada no Brasil. O celeiro do mundo é irrigado, literalmente, pelo coração das águas.

Algumas consequências dessa sobreposição de mundos (coração e celeiro) são evidentes; outras, menos intuitivas. O desmatamento quebra o ciclo de infiltração, armazenamento e liberação de água, ampliando a insegurança hídrica nos períodos de seca. Estudos mostram que os rios do Cerrado já perderam 27% da disponibilidade hídrica e podem perder entre 33% e 50% até 2050, se o ritmo de conversão continuar. Isso significa mais disputa por água no meio rural e mais racionamentos e apagões nos centros urbanos, já que a maior parte da geração de energia depende das hidrelétricas. O clima também se retroalimenta: o desmatamento altera a evapotranspiração, alonga os períodos secos e concentra as chuvas, com efeitos ora agravados, ora incertos, em anos de El Niño. O resultado volta como quebra de safra da própria soja e de outros cultivos — e chega à sua xícara: o café moído subiu quase 78% em 12 meses, segundo o IPCA/IBGE de março de 2025.

Você poderia pensar: "Mas o agro carrega o Brasil nas costas, é o preço do desenvolvimento". Vale olhar alguns números pouco comentados. A Lei Kandir isenta de ICMS a exportação de commodities, deixando de pagar mais de R$ 600 bilhões de  em impostos. Mais de 500 bilhões (86%) do financiamento do Plano Safra vai para o agronegócio e 14%, para a agricultura familiar. O agronegócio ocupa 77% da área agrícola do país, mas é a agricultura familiar que sustenta a mesa brasileira: 80% da produção de mandioca, 64% do leite, 42% do feijão e 67% de todo o emprego no campo, segundo o Censo Agropecuário 2017, feito pelo IBGE. E dois terços  das emissões de gases do efeito estufa do Brasil vêm do modo de produção e ocupação do agronegócio.

A escolha do que se faz com um bioma impacta a todos e é feita diariamente: no que se compra no mercado, no que se aceita como normal e em quem se vota. Vale a pergunta: o "desenvolvimento" que queremos é o que nos foi imposto pelos colonizadores e replicado até hoje ou um projeto autoral, que trate a diversidade e a água como patrimônio, e não como estoque a liquidar?

No Dia Nacional do Cerrado, na última sexta-feira, a campanha #VotePeloCerrado apresentou uma carta-compromisso com o Cerrado e seus povos, dirigida a candidatas e candidatos dos Poderes Executivo e Legislativo, nos âmbitos federal e estadual, com oito propostas para orientar programas de governo e atuação parlamentar. Trata-se de uma mobilização da sociedade civil que busca levar o futuro do bioma e de seus povos para o centro do debate das eleições de 2026. 

O Cerrado não pede que se pare de produzir. Pede que se produza sem infartar o coração. Ainda há metade do bioma de pé e a outra metade a se restaurar e produzir com sustentabilidade/responsabilidade. A pergunta não é se ele vai continuar pulsando, mas se nós vamos deixar.

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Por Opinião
postado em 15/09/2026 05:00
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