Artigo

Por uma ciência da comunicação contra a violência de gênero

Campanhas que não confrontam a imagem hegemônica de masculinidade que estrutura as relações de gênero não apenas deixam de fora um dos envolvidos, mas deslocam as responsabilidades

A lição número um sobre o enfrentamento da violência contra as mulheres — e isso inclui a comunicação — é entendê-la como indissociável do princípio da igualdade de gênero na sociedade -  (crédito: kleber sales)
A lição número um sobre o enfrentamento da violência contra as mulheres — e isso inclui a comunicação — é entendê-la como indissociável do princípio da igualdade de gênero na sociedade - (crédito: kleber sales)

Por Janaína Penalva — professora da Faculdade de Direito da UnB e integrante do Grupo Tramas: pesquisa, gênero e ativismo; Felipe Polydoro — professor da Faculdade de Comunicação da UnB e integrante do Grupo Tramas: pesquisa, gênero e ativismo

Precisamos conversar sobre as campanhas de prevenção à violência de gênero. Uma conversa crítica, franca, para ontem. E a urgência tem um motivo louvável. Poucas vezes se viu o espaço público brasileiro tão pautado pelo sofrimento infligido diariamente a milhões de mulheres e meninas: notícias, artigos de opinião, debates na TV, postagens em redes sociais, novelas, discursos eleitorais de todo o espectro político. E, no meio disso, a inundação de campanhas, num movimento em expansão desde a criação da Lei Maria da Penha, 20 anos atrás, e que recentemente adquiriu progressão geométrica. Falamos aqui de peças, cartazes, banners, cards e outros produtos — geralmente com linguagem publicitária — criados por instituições públicas e privadas com o objetivo de informar, prevenir, conscientizar e estimular denúncias de violência de gênero.

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Precisamos falar das campanhas porque, apesar da bem-vinda multiplicação, boa parte das mensagens ignoram o conhecimento acumulado sobre a comunicação como enfrentamento à violência de gênero. A contribuição do Grupo Tramas: Pesquisa, Gênero e Ativismo para essa conversa começou em  25 de agosto deste ano, num debate no nosso canal youtube/@tramaspesquisa com duas especialistas no tema: Mari Leal, do Instituto AzMina, e Isadora Vianna Sento-Sé, coordenadora do Núcleo de Estudos em Desigualdades Contemporâneas e Relações de Gênero da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Nuderg-Uerj). A quem interessar, o vídeo está inteiro no canal do YouTube. Aqui, vamos sintetizar alguns problemas e soluções para aprimorar a comunicação contra a violência de gênero, ideias recolhidas da live, mas também de pesquisas que estamos conduzindo no grupo Tramas.

A lição número um sobre o enfrentamento da violência contra as mulheres — e isso inclui a comunicação — é entendê-la como indissociável do princípio da igualdade de gênero na sociedade. O agressor se sente autorizado a agredir por uma decisão individual e pela assimilação pouco refletida de uma ideia de homem como senhor e proprietário do corpo e dos desejos das mulheres. Portanto, campanhas que não confrontam essa imagem hegemônica de masculinidade que estrutura as relações de gênero não apenas deixam de fora um dos envolvidos, mas deslocam as responsabilidades. Mesmo que a construção da masculinidade não seja o cerne das peças visuais de prevenção e do texto que as acompanham, a perspectiva da isonomia de gênero deverá permear todo o processo de elaboração, começando pela estratégia.

Agora o baque: inúmeras pesquisas ao redor do mundo demonstram que a presença de figuras masculinas em campanhas de prevenção à violência de gênero é ínfima. Um estudo do Nuderg-Uerj que analisou campanhas do período de 2000 a 2018 no Rio de Janeiro concluiu que apenas 6% delas tinham homens como público-alvo (sejam agressores, sejam homens em geral). Além disso, em apenas 9% das peças havia algum personagem masculino. Outras pesquisas apresentam números diferentes, mas coincidem na constatação de que os homens representam menos de 10% tanto do público-alvo quanto dos personagens incluídos nos materiais. As peças são endereçadas principalmente para as mulheres, e a personagem mais comum é a vítima — não raro representada com ferimentos e sangue, em nítido sofrimento físico. Ou seja, os homens, os autores das agressões e os principais responsáveis pelo problema dos abusos contra corpos femininos, simplesmente não aparecem na comunicação voltada ao enfrentamento da violência de gênero.

Outro consenso nas pesquisas que consultamos é o foco excessivo no estímulo à denúncia e na conscientização das mulheres de que certas atitudes de seus companheiros já configuram um tipo de violência passível de recrudescimento futuro. Portanto, concentram-se respectivamente na prevenção terciária (quando os abusos estão normalizados no cotidiano doméstico) e secundária (contexto em que ainda prevalecem violências psicológica ou patrimonial, com riscos de evoluir para a agressão física). Há um número reduzido de campanhas que priorizam a prevenção primária, dirigida a transformações mais profundas que desnaturalizam os papéis de gênero convencionais — por exemplo, a promoção de masculinidades cuja construção introjeta desde cedo o princípio da igualdade de gênero.

No debate on-line do Grupo Tramas, Mari Leal, do Instituto AzMina, apontou uma deficiência gravíssima das campanhas incentivadoras de denúncias: a falta de orientações mínimas dos caminhos que as vítimas devem seguir, conectando a comunicação com as políticas públicas e levando em conta as diferenças territoriais, sociais e raciais. "Uma política pública que atende uma mulher do Leblon não vai atender uma mulher do complexo da Maré, onde a polícia só entra de Caveirão." E a comunicação só vai funcionar, continua Mari, quando criada por equipes diversas que vivem e conhecem realidades distintas. Ou seja, não existe uma fórmula mágica universal para a comunicação para a prevenção da violência de gênero e, sim, o contrário: campanhas amalgamadas com políticas públicas por sua vez adequadas às peculiaridades de cada território, geografia, raça e organização social.

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Por Opinião
postado em 13/09/2026 06:01 / atualizado em 13/09/2026 13:01
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