Artigo

A democracia brasileira

Que tenhamos a democracia cada vez mais fortalecida, com mais liberdade crítica e criativa, respeitando os outros no mundo e a verdade ética

. -  (crédito: Caio Gomez)
. - (crédito: Caio Gomez)

Monge Sato  graduado em administração e em direito, pós-graduado em ciências sociais, mestre em economia, monge budista, ex-regente do Templo Budista de Brasília 

Eu lá estava. No dia 16 de setembro de 1973, lembra o nosso poeta Pedro Tierra que, cinco dias depois de bombardear o Palácio La Moneda, matar o presidente Salvador Allende, legitimamente eleito pelo povo chileno, os fascistas liderados por Augusto Pinochet, a serviço dos Estados Unidos, mantinham Santiago submetido ao terror com arrastões, sequestros, fuzilamentos, embaixadas cercadas, medo disseminado por toda parte, tudo em nome da democracia.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

Nesse mesmo dia, o poeta e violonista chileno Victor Jara de La Peña de Los Parra foi executado brutalmente com as mãos decepadas.   

Outro dia, estava em São Paulo e fui ao Parque Villa Lobos, inaugurado pelo governador Mário Covas que era sabidamente democrata e contra a ditadura. Como faço normalmente, passei a cumprimentar todos com que cruzo com "bom dia", e ninguém me respondeu. Não acontecia isso antes e fiquei intrigado: será que a população brasileira em geral vive com ansiedade e medo? É por causa das eleições que se avizinham? 

Ora, tanto o medo como a ansiedade são um fenômeno mundial, como sinal dos tempos em que vivemos na incerteza, confirmada até na ciência por meio da física quântica que observa o movimento dos mini átomos que representam a materialidade. Por outro lado, é verdade que, em Brasília, ando com os cachorrinhos pela quadra onde moro e a maioria das pessoas responde ao meu cumprimento, talvez não a mim, mas aos pets que demonstram amorosidade no afeto e sinceridade. 

A amorosidade com afeto e sinceridade são importantes nas eleições que se aproximam. Isso faz parte da democracia. 

Muita gente se recorda do final triste e fatídico da gestão Collor, se bem que isso provocou o surgimento do Plano Real, com a ascensão do Fernando Henrique Cardoso, que foi presidente por duas vezes. 

É bom lembrar que é também dessa época a formação do governo paralelo, sob a liderança de Lula, que contou com figuras destacadas da sociedade, como Antonio Candido de Mello e Souza, Aziz Ab'Saber, José Gomes da Silva, José Paulo Bisol, Marcio Thomaz Bastos, Walter Barelli. Tive a honra de figurar como responsável pela reforma do Estado. 

Não quero falar da reforma do Estado agora, pois é um desafio monumental desenhar uma máquina pública republicana, eficiente e desatrelada do patrimonialismo tradicional, pois é indispensável estruturar um Estado voltado para a garantia dos direitos fundamentais e a redução das profundas desigualdades brasileiras sem falar do planejamento estratégico democrático, o fortalecimento da gestão e a valorização das carreiras públicas como alicerces indispensáveis para que as políticas sociais cheguem aos que mais precisam e a estabilidade democrática não seja sequestrada pelo fisiologismo. 

Mas Lula pode se orgulhar de medidas amorosas voltadas aos menos favorecidos, como as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs); a Farmácia Popular; o Bolsa Família; a Bolsa Escola; o Fome Zero; o Minha Casa, Minha Vida; o Luz para Todos, o Prouni; o Fies; o Pronatec e outras medidas que favoreceram toda população, além da especial atenção às mulheres — com Janja —, aos indígenas e ao cuidado pela natureza. 

Isso pode sensibilizar até gente que não viveu os anos cinzentos da ditadura e que ascendeu socialmente por causa dessas medidas! E, não se trata somente de questões internas, como o Pix que tem suscitado admiração pelo mundo. A nacionalidade se forma pela dignidade e pela soberania no palco mundial — como ele faz agora nas Nações Unidas —, propondo o exercício efetivo da democracia que busque a paz e que seja capaz de extirpar de forma consistente o medo e a ansiedade pela segurança social. 

Que tenhamos a democracia cada vez mais fortalecida, com mais liberdade crítica e criativa, respeitando os outros no mundo e a verdade ética que se aprende na família integrada e nas boas escolas com sensíveis e competentes professores.  

Isso diria o falecido Paulo Freire, que foi responsável pela minha passagem pelo pelotão de fuzilamento no Chile, e não Marx, Mao Tse Tung e Fidel Castro. Ele continua me inspirando no Projeto HaiGa como atividade trans religiosa, transcultural e trans política que desejo difundir pelo Brasil. 

Finalmente, quero lembrar que o desenvolvimento que teve o Brasil ou o Chile e até a Argentina não foi alicerçado na ditadura. Esta provei na pele, nos ossos e na cabeça com os tampões na orelha que agravaram a minha surdez. 

Ditadura nunca mais.  

  • Google Discover Icon
Por Opinião
postado em 22/09/2026 05:00
x